A Solenidade de Todos os Santos nos convida a contemplar a beleza da graça de Deus na vida humana. Celebramos os santos reconhecidos pela Igreja e a multidão incontável de homens e mulheres cuja fidelidade permaneceu escondida aos olhos do mundo. A santidade é um chamado dirigido a todos: pelo Batismo, fomos unidos a Cristo e chamados a participar de sua vida divina.
O Apocalipse apresenta “uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7,9). São aqueles que, descobrindo e acolhendo a própria pobreza, encontraram a felicidade em permitir que Deus realizasse neles as suas obras de amor. Por isso, ao término dos seus dias cantam a glória de Deus que os amou.
Essa multidão proclama: “A salvação pertence ao nosso Deus”. A santidade nasce da graça: Deus toma a iniciativa e nos oferece gratuitamente seu amor. Os santos “lavaram suas vestes, tornando-as brancas no sangue do Cordeiro”, e nós, como eles, somos chamados “filhos de Deus”, a caminho de uma plenitude que ainda não foi revelada.
No Evangelho, Jesus proclama as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12) como caminho para viver a santidade que se revela no seguimento e identificação com Jesus, a presença visível da santidade do Pai.
Ele chama felizes os pobres em espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz e os perseguidos por causa da justiça. Sua palavra revela uma felicidade enraizada na comunhão com Deus, capaz de sustentar a vida mesmo em meio às dificuldades.
A pobreza em espírito nos ensina a depender do Pai e a usar os bens com liberdade e generosidade. A mansidão educa nossa força para o serviço e nos ajuda a responder aos conflitos sem alimentar a violência. A misericórdia nos dispõe a perdoar e a cuidar de quem sofre. A pureza de coração unifica nossas intenções na busca sincera do bem. A paz exige verdade, justiça, escuta e disposição para a reconciliação.
Ao proclamar felizes os que choram e os que são perseguidos, Jesus anuncia que Deus está perto de quem sofre e que o mal não terá a última palavra. Essa promessa também nos envolve: somos chamados a consolar os aflitos, defender os injustiçados e aliviar toda dor que estiver ao nosso alcance. E a alegria que Jesus propõe não nasce de ver todos os nossos desejos realizados, mas de aceitar quem somos, com nossos limites e possibilidades.
As Bem-aventuranças nos ensinam a acolher a vida real como lugar de encontro com Deus. Não precisamos esperar condições ideais para começar a amar: podemos responder hoje, numa conversa reconciliadora, num trabalho honesto, numa visita a quem está só, no sacramento da Reconciliação, num tempo diário de oração.
Peçamos a graça de viver as Bem-aventuranças com perseverança. Que a esperança da vida eterna ilumine nossas escolhas e faça da nossa existência um humilde cântico de gratidão ao Pai.
Dom João Carlos Seneme, css
Bispo Diocesano de Toledo


