sábado, 10 outubro, 2026
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Palavras não podem ser desditas

O filósofo Zenão afirmou que é “Melhor tropeçar com os pés do que com a língua.” Há quedas das quais podemos nos levantar. Podemos tropeçar, cair, machucar os joelhos e, depois de algum esforço, recuperar o equilíbrio e continuar caminhando. A vida nos oferece inúmeras oportunidades de recomeço. Entretanto, existe um tipo de tropeço que pode deixar marcas muito mais profundas: o tropeço da língua.

            Uma palavra pronunciada não pode ser recolhida. Pode haver arrependimento, pedido de desculpas, tentativa de reparação e até perdão, mas aquilo que foi dito já entrou no mundo. A palavra saiu da boca, alcançou alguém e produziu algum efeito. Por isso, antes de falar, é necessário compreender que a linguagem não é neutra: ela pode construir ou destruir, aproximar ou afastar, consolar ou ferir, reconciliar ou provocar rupturas.

            A sabedoria filosófica há muito tempo reconhece esse perigo. Para os estoicos, entre eles Zenão, a razão deveria exercer domínio sobre as paixões e sobre os impulsos. Falar sem reflexão significa, muitas vezes, permitir que a emoção momentânea governe aquilo que deveria ser submetido à prudência.

            A filosofia nos ensina, portanto, que saber calar também é uma forma de sabedoria. Nem tudo o que pensamos precisa ser dito; nem tudo o que sentimos precisa ser transformado imediatamente em palavras. A maturidade consiste, muitas vezes, em criar um intervalo entre aquilo que sentimos e aquilo que decidimos falar. É nesse pequeno espaço entre o impulso e a palavra que reside a possibilidade da prudência.

            A palavra como responsabilidade – Na tradição judaico-cristã, a palavra possui uma dimensão ainda mais profunda. O Evangelho segundo Mateus registra uma advertência de Jesus: “Porque por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado.” (Mateus 12:37)

            A afirmação não deve ser compreendida apenas como uma ameaça moral, mas como um reconhecimento da responsabilidade humana diante daquilo que dizemos. A palavra revela algo de nós. Ela manifesta pensamentos, sentimentos, valores, intenções e, muitas vezes, aquilo que carregamos interiormente. Por isso, a Bíblia também afirma: “A morte e a vida estão no poder da língua.” (Provérbios 18:21).

            É uma imagem extraordinariamente poderosa. A língua pode produzir vida ou morte simbólica. Uma palavra de incentivo pode devolver esperança a alguém que estava desistindo. Uma palavra de carinho pode aliviar uma dor silenciosa. Uma palavra de reconhecimento pode transformar a maneira como uma pessoa enxerga a si mesma. Mas também ocorre o contrário. Uma humilhação pode destruir a autoestima. Uma calúnia pode comprometer uma reputação. Uma ofensa pode permanecer na memória durante anos. Uma palavra dita no momento de raiva pode provocar uma ruptura que talvez jamais seja plenamente reparada. A boca fala em segundos; o coração de quem escuta pode carregar aquela palavra durante anos. 

            O perigo das palavras ditas no calor da emoção – Um dos grandes problemas das relações humanas é que frequentemente falamos quando estamos dominados pela raiva. Nesse momento, queremos vencer a discussão, ferir aquele que nos feriu, responder à altura ou dizer aquilo que, em condições normais, talvez tivéssemos vergonha de pronunciar. Depois vem o silêncio. Depois vem o arrependimento. E então surge a frase:“Eu não queria ter dito isso.” Mas quiséssemos ou não, dissemos. Esse é o drama da palavra: ela não possui botão de retorno.

            Podemos apagar uma mensagem do celular, mas não podemos apagar da memória aquilo que alguém leu. Podemos pedir desculpas, mas não podemos voltar no tempo para impedir que determinada frase tenha sido pronunciada. Podemos tentar reconstruir uma relação, mas algumas palavras deixam rachaduras que exigem muito tempo para serem reparadas.  Por isso, pensar antes de falar não é covardia. É sabedoria.

            A ética da palavra –  Talvez devêssemos adotar três perguntas simples antes de falar: É necessário? É verdadeiro? É gentil?  A primeira pergunta nos convida à prudência. Nem tudo precisa ser dito. A segunda nos lembra da responsabilidade com a verdade. Não devemos transformar suspeitas em certezas, opiniões em fatos ou boatos em acusações. A terceira nos conduz à dimensão ética da comunicação. Mesmo quando precisamos dizer uma verdade difícil, podemos escolher fazê-lo sem humilhar, sem destruir e sem diminuir o outro. A verdade não precisa ser acompanhada pela crueldade. Dizer o que pensamos não nos dá o direito de ferir deliberadamente.

            O cristianismo coloca a palavra dentro de uma ética do amor. Jesus resume os mandamentos no amor a Deus e ao próximo. Nesse sentido, a linguagem também deve ser orientada pelo respeito à dignidade humana. A Carta aos Efésios aconselha: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para edificação.” (Efésios 4:29)

* Filósofo e teólogo – professor de filosofia, antropologia e história.

Professor da Rede Estadual de Educação

pardinhorama@gmail.com

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