Para nós que vivemos em uma região agrícola, a chuva representa múltiplos sentidos, dentre eles, de renovação, esperança, alívio após períodos de intenso calor e prosperidade. No entanto, quando vem acompanhada de ventos fortes, granizo ou temporal, pode passar a causar preocupação excessiva, modificando a forma com que nos relacionamos com a chuva, além de deixar rastros emocionais.
Temos presenciado, com frequência, eventos climáticos de instabilidade. Com isso, uma pessoa que nunca teve receio de chuva pode começar a sentir apreensão diante de uma previsão de temporal. Recentemente, durante o expediente na clínica onde atuo, juntamente com profissionais de outras áreas, uma sexta-feira como todas as outras, exceto por uma previsão de temporal a partir das 15h00. Estranhamente, às 15h30, só estavam os profissionais que atuam na clínica. Os demais foram buscar abrigo, um lugar em que pudessem se sentir seguros. Também, estranhamente, a previsão não se concretizou.
A apreensão diante da previsão de temporais é reforçada após as pessoas vivenciarem situações de danos, seja à residência, aos veículos, perda de bens, falta de energia ou qualquer outra experiência que tenha provocado sensação de vulnerabilidade. Nosso cérebro aprende com experiências ameaçadoras e tende a antecipar a possibilidade de que algo semelhante aconteça novamente.
Muitas vezes não é exatamente a chuva que assusta, mas o que ela pode representar. O medo pode estar relacionado aos prejuízos materiais, à segurança da família, ao risco de perder aquilo que foi conquistado com esforço ou à sensação de não ter controle sobre os acontecimentos. A simples previsão de um temporal pode, então, desencadear ansiedade, tensão, dificuldade para dormir, necessidade constante de acompanhar aplicativos de meteorologia e pensamentos repetitivos sobre o que poderá acontecer.
As medidas adotadas diante da possibilidade de eventos climáticos intensos também podem reforçar essa percepção de ameaça. Quando as universidades suspendem as aulas, as escolas alteram suas atividades, as empresas orientam seus funcionários ou eventos são cancelados, essas decisões têm como objetivo preservar a segurança. Por outro lado, para algumas pessoas, essas medidas podem funcionar também como um sinal de que existe um grande perigo se aproximando. Assim, compromissos passam a ser cancelados ou evitados mesmo quando as condições reais ainda não representam uma ameaça concreta.
É importante compreender que prevenção e ansiedade não são a mesma coisa. Tomar medidas de segurança diante de uma previsão confiável é uma atitude responsável. O problema surge quando a possibilidade de um temporal começa a controlar a rotina, fazendo com que a pessoa deixe de sair, trabalhar, estudar ou realizar atividades importantes sempre que existe previsão de chuva, mesmo sem indicação de risco significativo.
Nessas situações, é saudável buscar informações em fontes confiáveis, evitar o excesso de exposição a notícias e alertas e, estabelecer medidas práticas de segurança para a residência e para a família. Depois das medidas tomadas, é importante tentar retomar a rotina possível, sem permanecer em estado de vigilância permanente.
Silvana Pedro Pinto é psicóloga e Mestre em Promoção da Saúde.
Atende adultos e crianças na Clínica Bambini.


