A humanidade sempre buscou entender Deus, explicar como ele age e definir até onde vai sua misericórdia. Muitas vezes, acabamos criando um Deus à nossa imagem, preso aos nossos próprios critérios e cálculos. Mas a Palavra deste domingo nos lembra que Deus é maior do que tudo o que pensamos sobre ele: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos” (Is 55,8).
A parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1-16) coloca diante de nós uma pergunta direta: “Estás com inveja porque eu estou sendo bom?” (Mt 20,15). Jesus não está propondo uma regra para as relações de trabalho. Ele está falando do Reino dos Céus e mostrando como Deus se relaciona conosco.
O proprietário sai em diferentes horas do dia para contratar trabalhadores. Alguns começam de madrugada, outros ao meio-dia e outros quando a jornada está quase terminando. No final, todos recebem a mesma quantia. Os primeiros, que suportaram o peso do dia e o calor, ficam indignados. Contudo, o proprietário não foi injusto com eles. Pagou exatamente o que havia combinado. A dificuldade não está no que receberam, mas no fato de os últimos terem recebido a mesma coisa.
A parábola revela nosso modo de pensar. Muitas vezes, não sofremos porque recebemos pouco, mas porque pensamos que o outro recebeu demais. Comparamos dons, oportunidades, responsabilidades e reconhecimentos. Aquilo que recebemos gratuitamente passa a ser considerado um direito. Então, a gratidão cede lugar à murmuração, e a comparação pode se transformar em ressentimento.
Isso também acontece na comunidade cristã. Podemos transformar os anos de serviço, a função exercida ou a fidelidade à Igreja em motivo de superioridade. Pensamos que, porque chegamos antes ou trabalhamos mais, temos maiores direitos diante de Deus. Entretanto, na vinha do Senhor ninguém é proprietário. Todos somos trabalhadores chamados pela graça.
Trabalhar desde cedo na vinha é uma graça. Permanecer com o Senhor, participar de sua missão e servir à comunidade não são motivos para exigir recompensa. São dons recebidos. Quem reconhece isso não vê o irmão como concorrente, mas como alguém que Deus também procurou e chamou.
Deus não se cansa de chamar. Os trabalhadores da última hora dizem: “Ninguém nos contratou” (Mt 20,7). Talvez tenham sido ignorados, rejeitados ou considerados incapazes. O proprietário, porém, continua voltando à praça até encontrá-los. Assim age Deus. Ele não desiste de ninguém, mas procura cada pessoa no tempo e nas circunstâncias de sua vida. Conhece as feridas, as longas esperas e as oportunidades que lhe foram negadas. Seu chamado alcança também aqueles que nossos julgamentos deixaram de lado.
Não devemos julgar quem chegou depois, recomeçou tarde ou seguiu um caminho diferente. A misericórdia concedida ao outro não diminui a graça que recebemos, pois a bondade de Deus não se limita aos nossos critérios.
São Paulo indica o caminho: “Para mim, o viver é Cristo” (Fl 1,21). Quando Cristo está no centro, deixamos de comparar nossa vida com a dos outros e procuramos responder com fidelidade ao chamado recebido.
Deus continua procurando e chamando. Peçamos a graça de servir em sua vinha sem cobranças e de acolher com alegria aqueles que chegam depois.
Dom João Carlos Seneme
Bispo Diocesano de Toledo


