sábado, 19 setembro, 2026
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Por Clóvis de Almeida

A mulher de César

Uma das coisas que ouvi e não esqueci de um professor na Faculdade de Comunicação foi o famoso adágio latino adaptado de Júlio César, “à mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta”, que trata da importância da reputação e da transparência além dos atos reais. Na gestão, no marketing e na comunicação moderna, a frase destaca que a execução de um bom trabalho perde valor se não for comunicada ou evidenciada de forma estratégica para o público.

Todos precisam saber

Baseado nesta frase, eu criei outra para dizer a políticos com mandato: não basta fazer, é preciso mostrar. Na época, era assessor de imprensa de prefeitura e via o dia todo a necessidade de mostrar o trabalho do meu assessorado. Me aplicava 100 por cento nisso e fazia um pouco mais ainda para que o maior número de pessoas possível soubesse o que acontecia de bom no trabalho de quem me pagava. Isso deu rendeu inúmeros frutos, inclusive uma reeleição, embora poucos se deram conta do meu esforço. Mas isso não importa mais.

Receita boa

Me lembrei do trabalho que fazia como assessor, nesta semana, ao ler um artigo sobre assessoria de imprensa política, escrita por um aluno de Comunicação que se forma neste ano, e que pediu minha opinião. Fiquei feliz ao perceber que ele está no caminho certo ao descrever uma receita de assessoria de câmaras de vereadores, onde aponta uma excelente alternativa para atrair o público para as sessões e para o trabalho dos vereadores.

Não é novidade

O que o formando apresenta não é a invenção da roda. Muito longe de ser novidade, mas trata-se de uma receita que quase ninguém faz, por falta de interesse, de criatividade, por preguiça ou por incompetência. Audiências Públicas são um pulo do gato para atrair público, por menos que se interesse uma comunidade. Basta investir na divulgação e na insistência de convites à públicos dirigidos, ou de forma geral.

Tudo é importante

Qualquer assunto é motivo para convocar a sociedade a fim de discutir o tema proposto, com dois vieses, o de ouvir o que os interessados têm a dizer e anunciar o que se pensa do assunto. É uma grande maneira de dar destaque a um projeto de lei que se pretende implantar no município, ou mudar algo que já existe na biblioteca que rege tudo o que é pertinente nas normas que regem o povo, a cidade e suas coisas. É uma forma muito inteligente de tentar dar valor a qualquer pensamento, por mais simplista, ingênuo ou interesseiro que seja, pois, abrindo discussão ampla aos “simples mortais’, tudo pode saltar de mera bobagem a uma grande “sacada”, ou de brilhante ideia a um nada em meio à coisa nenhuma. É só uma questão de lançar discussão, baseando se num pensamento que pode ou não servir para alguma coisa.

Perda de tempo

Para muita gente, as Audiências Públicas são um pé no saco, mas deveriam ser mais respeitadas, pois se trata de um instrumento máximo da democracia, onde cada opinião é ouvida, passível de ser acatada a ponto de mudar os destinos de uma nação, quiçá de uma cidade.

Há povo e povos

Pena que a maioria da população não dá o menor valor para essas audiências. Há exemplos de quilos, onde discussões importantes, onde poderiam ter tomado rumos mais democráticos e republicanos foram decididos por dois ou três mentecaptos que se acharam no direito de, sem necessidade alguma, mudar nomes de ruas, de bairros, praças, mãos de direção no trânsito, datas de festas públicas e até assuntos mais importantes. Tudo porque “ninguém” apareceu na Audiência, a não ser os obrigados por função, apesar de convites no rádio, jornais, televisão, alto falante e até ligações telefônicas para os mais interessados. Tudo em vão. Na hora, só restou ao “responsável”, bater o martelo e dizer: como ninguém está nem aí, será como a gente quer e ponto final. E foi, e está sendo! Quem achar ruim depois, que vá falar ao bispo, com todo respeito a Vossa Reverendíssima.

Tudo como dantes

Do Império Romano até hoje, pouca coisa mudou quando se fala em chamar o povo para discutir problemas comuns. A frase “pão e circo para o povo” foi dita há muito tempo pelo imperador romano Vespasiano, quando da construção do Grande Coliseu. Naquela época, a escravidão na zona rural fez com que vários camponeses perdessem o emprego e migrassem para a cidade. O crescimento urbano acabou gerando problemas sociais, e o imperador, com medo que a população se revoltasse com a falta de emprego e exigisse melhores condições de vida, acabou criando a política “panis et circenses”, pão e circo. Depois disso, audiência pública é só um detalhe.

Lavando as mãos

Alguns acomodados dizem que elegem seus representantes para não ser incomodado o tempo todo. Não deixam de ter razão, mas se esquecem de que seus escolhidos podem mudar o rumo das promessas feitas, o que quase sempre acontece. Por falar em promessa, os paraquedistas estão por aí, prometendo até chuva doce, pessoalmente ou por meio de seus escudeiros. Fiscalizar não é só dever do vereador ou deputado, é de todo cidadão com consciência de que longe do povo tudo pode acontecer. E acontece, acreditem!

Aviso aos navegantes

Não tive o propósito de dar conselhos nem apontar quem faz ou deixa de fazer. Muito menos tenho interesse em saber quem está fazendo ou já fez. Só sei que não há como contestar o que já preguei há mais de 20 anos: não basta fazer, é preciso mostrar. Já vi muito vereador, prefeito e até deputado deixar de ser reeleito por não mostrar, ou mostrar de menos ou errado, o trabalho que fizeram. Uma vitrine, por menor que seja, é janela para ser vista ou lembrada. Mas, é bom salientar que janela mal feita é só um buraco.

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