sábado, 26 setembro, 2026

Murmuração e reclamação poluem nossa vida

O hábito de reclamar pode afetar nossa maneira de enxergar a realidade, nossos relacionamentos e a forma como enfrentamos as dificuldades. Vivemos em uma época em que reclamar parece ter se tornado um hábito cotidiano. Reclama-se do trabalho, da família, do casamento, da economia, dos vizinhos, do trânsito, das circunstâncias e até da própria vida. Muitas vezes, porém, não percebemos que a repetição constante de palavras negativas não apenas revela a maneira como enxergamos a realidade, mas também pode influenciar a forma como vivemos.

A murmuração e a reclamação carregam um potencial destrutivo. Roubam a alegria de quem murmura e podem afetar emocionalmente aqueles que estão ao redor. Quando a queixa se transforma em padrão de comportamento, deixa de ser apenas uma reação diante de um problema e passa a fazer parte do estilo de vida.

Isso não significa afirmar que toda doença seja consequência de pensamentos ou palavras negativas. A realidade humana é muito mais complexa. Entretanto, nossas emoções, atitudes e formas de lidar com os problemas podem influenciar profundamente nossa qualidade de vida. A raiva constante, o ressentimento, a ansiedade e a insatisfação podem gerar sofrimento, além de comprometer relacionamentos e decisões.

 

PALAVRAS QUE EDIFICAM

O apóstolo Paulo apresenta uma orientação importante em Efésios 4.29: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação” A preocupação não é simplesmente falar ou deixar de falar, mas compreender o efeito das nossas palavras. A comunicação pode edificar ou destruir, encorajar ou desanimar, aproximar ou afastar.

Às vezes, seria interessante se pudéssemos ouvir uma gravação de tudo aquilo que dizemos durante uma semana. Talvez ficássemos surpresos com a quantidade de reclamações, resmungos, medos, dúvidas e declarações negativas presentes em nossas conversas. Essa experiência poderia nos ajudar a perceber que algumas mudanças que desejamos em nossa vida começam justamente pela maneira como falamos sobre ela.

 

QUANDO A RECLAMAÇÃO SE TORNA UM HÁBITO

Certa vez, enquanto aguardava atendimento em um consultório médico, ouvi uma pessoa fazendo uma série de declarações negativas sobre a própria vida. Dizia coisas como: “Eu sou um cara azarado.” “Meu filho nunca vai mudar.” “Quanto mais eu tento, pior ele fica.” “Meu casamento simplesmente não funciona.”

Aquela conversa provocou uma reflexão importante: qual é o efeito de repetirmos diariamente aquilo que nos destrói por dentro? É evidente que falar sobre um problema não significa necessariamente murmurar. Há momentos em que precisamos expressar nossa dor, buscar ajuda, denunciar uma injustiça ou conversar honestamente sobre uma dificuldade. O problema começa quando a reclamação deixa de ser uma forma de enfrentar a realidade e passa a ser nossa principal maneira de enxergá-la.

UM CICLO QUE PRECISA SER INTERROMPIDO

 A murmuração pode criar um ciclo perigoso. Primeiro surge uma circunstância difícil. Em seguida, vem a reclamação. A pessoa passa a concentrar sua atenção exclusivamente no problema e, quanto mais fala sobre ele, mais presente ele parece estar. A insatisfação aumenta, surgem novas razões para reclamar e, pouco a pouco, a murmuração transforma-se em hábito. Quando isso acontece, a pessoa pode começar a enxergar a própria existência a partir daquilo que falta, do que deu errado e do que não consegue controlar. O sentimento de carência e opressão cresce, os relacionamentos são afetados e até as possibilidades de mudança podem parecer cada vez mais distantes.

 

DISCIPLINA SOBRE AS PALAVRAS

É por isso que precisamos exercer disciplina sobre nossas palavras. Não se trata de fingir que os problemas não existem, muito menos de adotar uma espécie de pensamento positivo que ignore a realidade. Trata-se de escolher uma maneira mais saudável e responsável de enfrentá-la.

Em vez de alimentar constantemente a reclamação, podemos procurar soluções. Em vez de repetir que nada vai mudar, podemos reconhecer aquilo que está ao nosso alcance. Em vez de usar a palavra para ferir, podemos utilizá-la para orientar, corrigir, consolar e edificar.

As palavras não são mágicas, mas são poderosas. Elas revelam muito do que carregamos dentro de nós e também influenciam nossos relacionamentos, nossas atitudes e a maneira como interpretamos as circunstâncias

PARTE DO PROBLEMA OU DA TRANSFORMAÇÃO?

Por isso, vale a pena fazer uma pergunta simples, mas profunda: O que as minhas palavras estão produzindo na minha vida e na vida das pessoas que me cercam? Estamos usando nossa língua para exortar e edificar ou para desencorajar e destruir? Nossas palavras fortalecem ou enfraquecem? Aproximam ou afastam? Produzem esperança ou alimentam o desânimo? Talvez uma das áreas em que mais precisamos exercer domínio próprio seja justamente a escolha das palavras. Nem toda dificuldade precisa se transformar em murmuração. Nem toda frustração precisa virar reclamação. E nem toda dor precisa ser transformada em uma sentença definitiva sobre o futuro.

Há problemas que precisam ser enfrentados, decisões que precisam ser tomadas e situações que precisam ser mudadas. Mas, em qualquer circunstância, podemos escolher se nossas palavras serão parte do problema ou parte da transformação.

            A murmuração polui. A palavra sábia edifica. E, muitas vezes, mudar a maneira como falamos é um dos primeiros passos para mudar a maneira como enfrentamos a vida.

* Filósofo e teólogo – professor de filosofia, antropologia e história.

Professor da Rede Estadual de Educação

pardinhorama@gmail.com

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