sábado, 26 setembro, 2026

Depressão masculina se manifesta diferente

Quando pensamos em depressão, geralmente imaginamos alguém triste, chorando, isolado, sem vontade de fazer nada. Essa imagem, embora corresponda à maior parte dos casos, principalmente em mulheres, não representa todas as formas pelas quais a depressão pode se manifestar. Nos homens, os sinais podem aparecer de maneira diferente.

A depressão é um transtorno do humor que pode atingir pessoas de diferentes idades e contextos. No entanto, fatores culturais e as expectativas relacionadas ao papel masculino podem influenciar a maneira como o sofrimento emocional é vivido e expresso. Muitos homens aprendem desde cedo que precisam ser fortes, controlar as emoções, não demonstrar fragilidade e resolver seus próprios problemas. Chorar, pedir ajuda ou admitir que não estão bem pode ser interpretado como sinal de fraqueza.

Por isso, nem sempre a depressão masculina aparece com os sinais clássicos de tristeza. Ela pode se esconder atrás de uma fachada de controle, irritabilidade ou agressividade. Um dos sinais que merece atenção é justamente a mudança persistente no comportamento, ou seja, seu comportamento usual sofre mudanças e passa dificilmente despercebido pelas pessoas com quem convive. O homem passa a estar constantemente irritado, impaciente, crítico, cínico, com pouca tolerância e explosões de raiva.

Também podem surgir comportamentos de risco ou formas pouco saudáveis de tentar aliviar o sofrimento, como o consumo excessivo de álcool ou outras substâncias, a dedicação exagerada ao trabalho, a prática imprudente de esportes radicais, a direção perigosa, os jogos de azar ou comportamentos sexuais compulsivos. Esses comportamentos funcionam como tentativas de escapar de sentimentos difíceis de reconhecer e expressar.

Alguns homens também passam a se afastar das pessoas, perdem o interesse pela convivência, apresentam dificuldades nos relacionamentos e deixam de participar de atividades que antes lhes proporcionavam prazer. Podem surgir sintomas físicos como cansaço intenso, alterações do sono, dores de cabeça, dores musculares e falta de energia, que podem acompanhar o sofrimento emocional. Por vezes, busca por consultas médicas para os sintomas sem relacionar com a causa principal. Quando assumirem que estão deprimidos, o quadro está em agravo.

Outro aspecto importante é que homens podem apresentar maior frequência de determinados quadros do espectro bipolar, o que reforça a importância de uma avaliação profissional cuidadosa.

Nem toda irritabilidade, mudança de comportamento ou desânimo significa depressão. O diagnóstico deve considerar a história da pessoa, a duração e intensidade dos sintomas e outras possíveis condições associadas.

Um dos maiores obstáculos para o tratamento continua sendo o estigma. Muitos homens acreditam que precisam enfrentar tudo sozinhos ou interpretam os sintomas como apenas uma fase de estresse. O problema é que o sofrimento emocional não tratado pode se intensificar e comprometer a vida profissional, familiar, social e afetiva.

Por isso, se você convive com um homem que vem apresentando mudanças persistentes de comportamento, irritabilidade incomum, isolamento, alterações importantes no sono, uso excessivo de álcool ou outras substâncias, comportamentos de risco ou perda de interesse pela vida cotidiana, não ignore esses sinais. Eles podem indicar que existe um sofrimento que precisa ser acolhido.

Converse sem julgamento e incentive-o a buscar por avaliação profissional. O tratamento pode envolver psicoterapia e, quando indicada, medicação prescrita e acompanhada por médico.

À família e aos amigos cabe também a tarefa essencial de escuta. Nem sempre é necessário ter respostas. Às vezes, oferecer presença pode ser a virada de chave para que aquele homem reconheça sua dor e peça ajuda.

Silvana Pedro é Psicóloga e Mestre em Promoção da Saúde.

Atende adultos e crianças na Clínica Bambini.

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