A liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum nos apresenta um dos milagres mais conhecidos de Jesus, a multiplicação dos pães (Mt 14,13-21). É o único milagre narrado pelos quatro evangelistas, sinal de sua importância para a fé da Igreja. Mais do que um gesto extraordinário, esse acontecimento revela quem é Jesus e aponta para a missão que Ele continua realizando no meio do seu povo.
A cena começa com uma notícia dolorosa: Jesus acaba de saber da morte de João Batista e busca um lugar deserto, talvez para rezar em silêncio. Mas encontra uma multidão marcada pela fome, pela doença e pela esperança. Em vez de afastá-la, ele se deixa mover pela compaixão. Antes de multiplicar os pães, Jesus multiplica sua misericórdia. O milagre nasce de um coração que se deixa tocar pelo sofrimento humano.
Surge um problema: já é tarde e não há alimento para todos. Os discípulos sugerem a solução mais prática: dispensar a multidão. Jesus responde com uma provocação: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Não é uma ordem impossível; é um convite a assumir responsabilidade pelas pessoas. Diante de cinco pães e dois peixes, Jesus não despreza a oferta pequena. Acontece, então, o milagre.
Esse gesto não nasce do nada. A primeira leitura, de Isaías 55, já anunciava um banquete oferecido gratuitamente a todos, mesmo aos que não têm com que pagar, um alimento que sacia não só o corpo, mas a alma: “Ouvi, e a vossa alma viverá”. O profeta Eliseu já havia alimentado cem homens com vinte pães, deixando sobras. Jesus retoma esse gesto e o leva a uma plenitude incomparável: alimenta mais de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças, com apenas cinco pães, e ainda sobram doze cestos. Em Jesus as promessas antigas atingem a plenitude. Cristo é o novo e definitivo Profeta, aquele em quem Deus realiza plenamente seu projeto de Salvação.
E há mais: esse pão multiplicado e partilhado aponta para outra mesa, a da Última Ceia, onde Jesus entregará não mais pão comum, mas o seu próprio Corpo. A Eucaristia é o banquete messiânico em sua forma definitiva, o dom absolutamente gratuito de Deus que se entrega para que tenhamos vida plena. Cada vez que participamos da Missa, somos convidados a viver a mesma lógica daquele entardecer junto ao mar: sentar-se à mesa com Jesus é se comprometer com a partilha, com o serviço, com a luta contra o desperdício e a desigualdade.
Este domingo abre também o mês Vocacional, em que a Igreja celebra o ministério ordenado, diáconos, padres e bispos. Não é coincidência: assim como os discípulos foram as mãos que distribuíram o pão multiplicado, o sacerdote é chamado a ser mediador entre Deus e o povo, pastor manso e generoso, que ajuda a tornar concreto, hoje, o Reino que Jesus anunciou naquela tarde.
Que Maria, Mãe da Igreja, interceda para que também nós saibamos oferecer o pouco que temos, confiantes de que, nas mãos de Deus, nunca faltará o essencial, e sempre sobrará algo para partilhar.
Dom João Carlos Seneme, css
Bispo Diocesano de Toledo


