Quem não gosta de samba…
Todo mundo já ouviu dizer por aí que quem não gosta de samba, bom sujeito não é. Coisa do poeta Dorival Caymmi, no famoso samba que tornou a frase uma lei para muita gente. De carona com a firmação se juntou a paixão pelo futebol, o que imortalizou o pensamento de que, quem não gosta de samba e futebol não é brasileiro.
É só um ditado
E uma bobagem sem tamanho! Uma besteira nacional passada de pai para filho e que nada tem a ver com brasilidade ou qualquer fagulha de sentimento pátrio. É a velha mania de misturar gostos e modas com cidadania e patriotismo. Futebol é só um esporte e samba é apenas um estilo musical, que, independentemente do que representam para um povo, não significa nada perto do que é verdadeiramente ser patriota.
Comparando
Imagine dizer que americano que não gosta de basebol não é americano, russo que não baila polka não é russo, ou japonês que não bebe saquê não gosta do Japão! Quanta bobagem! Confunde-se patriotismo com política, bandeiras partidárias e até com gente que usa os símbolos nacionais como se fossem particularidades de seus idealismos, na maioria das vezes pura politicagem.
Não confunda
Patriotismo é outra coisa, um sentimento que o brasileiro, no geral, ainda não domina como deveria, ou pelo menos como agem outras nações que amam de verdade suas pátrias. Caso dos próprios americanos que já nascem tendo uma bandeira de seu país ao lado do berço. É raro uma casa nos Estados Unidos que não possua uma bandeira americana em um canto. Muitos a possuem hasteada num mastro na parede da residência. As produções americanas do cinema nunca se esquecem de mostrar a bandeira do país em pelo menos uma cena, até nos filmes infantis ou pornôs.
Longe de patriotismo
O brasileiro ainda está longe de portar o Pavilhão Nacional com a naturalidade patriótica. Também pudera, não faz muito tempo, éramos proibidos de estampar nosso símbolo máximo. Era crime ter a bandeira numa camiseta ou mesmo num mastro em frente de nossas casas. Só se podia cantar o Hino em solenidades cívicas oficiais.
“Ignorânça astravanca o pogréssio”
Não faz tempo ouvi alguém dizer que bater palmas ou aplaudir após o término do Hino Nacional é proibido e fata de respeito. Onde? Como? Quando? Quanta bobagem! Aplaudir após a execução do Hino Nacional é permitido e considerado uma manifestação espontânea de civismo e muito respeito. É acima de tudo BONITO, uma forma de expressar o amor pela Pátria!
Tudo tem hora
Também não se pode avacalhar. A regra estrita rege ficar em pé durante a execução da música. Caso não cante, a pessoa deve ficar de bico fechado. Não pode fazer saudação paralela, como bater palminha no ritmo da música, assobios ou gritos. Canta ou fica quieto.
Falta de conhecimento
Outra besteira que sempre combati quando fui assessor de imprensa aqui no Paraná e em Mato Grosso é a ingenuidade na formação de convidados de mesas de honra durante o Hino Nacional, quando e quase sempre, os “ilustres” viram as costas para o público e ficam de frente para a Bandeira do Brasil. Santa bobagem! Foi o que aprendi como acadêmico de Jornalismo. A Lei nº 5.700/1971 determina que o respeito aos símbolos nacionais exige compostura e atenção, mas não exige que se vire de costas para a audiência para olhar para o pavilhão nacional. O país é o povo, a bandeira vem depois. Assim, não se vira as costas para o país, pois o povo é a nação e merece o maior respeito.
Atrasadinhos
Estamos “apenas” há 200 anos atrasados no uso comum da bandeira, como parte indivisível de uma brasilidade verdadeira. Há dois séculos que os americanos impuseram seu pavilhão no peito para mostrar ao mundo quem são, ou pelo menos o que pensam ser. Claro que ostentar uma bandeira não significa ser patriota, mas é o cartão de visitas de qualquer cidadão. Porém, não apenas em copa do mundo ou quando o “Brasil de chuteiras” entra em campo. Porém, os símbolos nacionais não deveriam ser usados como símbolos de política partidária. Nossa Bandeira e nossas cores deveriam apenas significar a nação brasileira e não uma ideia que depende de opiniões para serem aceitas ou não.
Pode isso, Arnaldo!?
Mais uma vez, a Seleção Brasileira de Futebol voltou pra casa mais cedo. Claro que eu gostaria que o Brasil estivesse neste domingo disputando a final com a Espanha ou com a Argentina (argh!). Mas fiquei feliz em perceber que o brasileiro não chorou a desclassificação como em outras copas. O desinteresse do brasileiro pela Copa do Mundo deste ano atingiu patamares recordes, com pesquisas como a do Datafolha apontando que mais da metade da população não acompanhou o torneio. Pode isso, Arnaldo!? Esse esfriamento tem três motivos principais: a desconfiança com a Seleção Brasileira desde muitas horas, o jejum prolongado de títulos mundiais e a concorrência com o ano eleitoral.
Você perdeu alguma coisa?
No fim das contas, não perdemos nada daquilo que realmente importa. Continuamos brasileiros, gostando de samba, de vanerão, de rock, de música clássica ou de absoluto silêncio. Continuamos brasileiros torcendo pelo futebol, pela peteca ou por esporte nenhum. Porque a brasilidade não mora na televisão nem no estádio. Mora no caráter, no respeito ao próximo, no amor pelo lugar onde vivemos e na capacidade de enxergar que a Bandeira Nacional representa todos nós — inclusive aqueles que desafinam no samba e nunca souberam o que é um impedimento. Não perdemos nada. Continuamos mais brasileiros do que nunca e quem não gosta de samba ou de futebol é tão brasileiro como quem prefere o vanerão ou só assiste a jogos de peteca.



