sábado, 27 junho, 2026
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Por Clóvis de almeida

Nunca estamos sozinhos

“Vacilava sempre a ficar nu lá no chuveiro, com vergonha de saber que tinha alguém ali comigo, vendo fazer tudo o que se faz dentro do banheiro”, diz a música de Raul Seixas dos anos 70, cujo nome da composição resume toda a letra: “Paranoia”. O medo de que as páginas da vida que escrevemos todos os dias se escancarem ao público já é preocupação para muita gente, principalmente para quem vive nas grandes cidades. Em todo lugar é possível ver as tão conhecidas plaquetas: “sorria, você está sendo filmado”.

Pé na frente, outro atrás

Não chega, é claro, a ser uma paranoia, mas está perto disso a forma com que autoridades, empresários, celebridades e cidadãos comuns passaram a medir palavras e atitudes. Nos últimos anos ficou evidente a preocupação de muita gente ao conceder entrevistas, participar de reuniões ou mesmo trocar mensagens em grupos considerados privados. Quando podem, antes de responder qualquer pergunta, querem saber o que será perguntado. É uma forma de preparação para uma eventual indiscrição.

Bem acompanhado

Na dúvida entre o que é público e o que deveria permanecer reservado, trava-se uma batalha diária. De um lado, profissionais da imprensa e investigadores buscando informações de interesse coletivo. Do outro, pessoas tentando preservar espaços mínimos de privacidade. A procura por um detalhe revelador, uma frase dita fora do microfone, uma mensagem enviada sem imaginar que um dia seria exposta, parece não conhecer limites. Na composição, Raul queria mostrar o medo do divino. “Por que sempre, sempre, eu estava com Deus”, diz a sequência de sua letra musical.

Todo cuidado é pouco

Mas a quase paranoia atual nos dá a sensação de que o momento privado da privada possa virar uma vitrine para qualquer mortal estender a sua curiosidade e invadir os nossos mais profundos segredos. Uma vida revirada nas minúcias pode ser útil para a coletividade quando os fatos revelados ajudam a esclarecer situações de interesse público, especialmente quando envolvem decisões que afetam a sociedade. Nesse aspecto, a transparência pode ser uma aliada da democracia.

Entre linhas

O problema começa quando a fronteira entre o interesse público e a curiosidade pública desaparece. Nos últimos anos, vazamentos de conversas, trocas de mensagens, gravações de reuniões e documentos reservados colocaram pessoas influentes em situações delicadas. Algumas revelações ajudaram a esclarecer fatos importantes. Outras serviram apenas para alimentar disputas, julgamentos precipitados e condenações antes mesmo de qualquer apuração completa. Muitas vezes, a informação corre mais rápido que a verdade.

Acabou o sossego

O grande desafio continua sendo julgar quando a vida de alguém pode ser exposta a ponto de estampar suas entranhas para uma sociedade sedenta por novidades, onde boa parte das pessoas pouco se importa com a forma como a informação foi obtida. O escárnio feito contra uma figura pública envolvida em um escândalo possui a mesma essência daquele dirigido ao trabalhador simples que vê sua intimidade transformada em assunto de esquina, rede social ou programa de rádio.

O peixe morre por onde?

O fato de alguém ter cometido um deslize, dito uma bobagem em um momento de irritação ou confiado uma opinião a um círculo restrito não deveria ser, por si só, uma sentença pública. Entretanto, vivemos uma época em que um áudio de poucos segundos pode valer mais do que horas de explicação, e uma captura de tela pode atravessar continentes antes que seu autor perceba o que aconteceu.

Deus nos livre!

Essa busca quase desenfreada por uma notícia exclusiva, por uma revelação bombástica ou por alguns segundos de fama digital ainda vai nos levar, a todos, a sentir o mesmo medo de Raul Seixas. Não de Deus — que devemos temer sempre —, mas de um celular esquecido sobre a mesa, de uma mensagem enviada ao grupo errado ou de uma câmera invisível que nos acompanha para onde quer que vamos. No mundo conectado de hoje, nunca estivemos tão próximos uns dos outros. E, paradoxalmente, nunca estivemos tão pouco sozinhos. Já olhou embaixo da cama hoje?

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