Alexandre Borges Colunista do UOL.
Flávio Bolsonaro pediu desculpas a Michelle em vídeo. Convocou a madrasta e a direita para união contra o inimigo comum. Disse que divergir de estratégia não significa divergir de princípio.
SÓ FALTOU COMBINAR COM O IRMÃO.
Enquanto Flávio soltava a pomba da paz, Eduardo Bolsonaro mandava “moer” quem discordasse dele na direita. Gravou um vídeo dirigido à direita que ousa questionar o envolvimento da sua família com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, com aquele vocabulário de sempre. “Por mim, pode moer esses caras. Senta o pau nesses caras. Exponham eles”, disse Bananinha. “Já é vagabundagem. Por mim, pode mandar moer esses caras.” Ele foi claro ao pedir que ninguém seja poupado por serviços já prestados ao bolsonarismo: “Ah, mas é o fulano, ah, mas é o sicrano? Cara, e não conte com a minha benevolência”. Nem a Erika Hilton fala assim das mulheres…
Ele até foi correto ao reconhecer que apenas algumas prostitutas virtuais da direita-pix e camelôs de cursinhos seguem com ele: “o negócio do Banco Master, quem mais criticou o Flávio foi a direita, porque as virgens no meio do bordel (?) Seus animais! Vocês são as virgens do bordel!” Para alguém que diz defender valores tradicionais e “Deus, pátria e família”, ser virgem no meio de profissionais do sexo não deveria ser motivo de insulto, mas não é hora de buscar racionalidade.
Flávio, até o momento em que esse artigo é publicado, não desautorizou uma vírgula do pedido de expurgos stalinistas do irmão. Não estamos falando de um desses trombadinhas virtuais que parasitam o bolsonarismo, mas o próprio irmão do candidato. Em fevereiro, ao SBT News, Eduardo classificou o apoio de Michelle e Nikolas Ferreira à pré-candidatura do irmão como “aquém do desejável” e acusou os dois de “amnésia”. Disse que “pessoas que foram eleitas, ou estão debaixo do guarda-chuva de Jair Bolsonaro, que se dizem seguidoras das suas ordens e determinações, deveriam ter se dedicado, com mais afinco, à campanha do Flávio”, disparou. E cravou que “Nikolas e Michelle estão jogando o mesmo jogo”…
Meses antes, na crise do Ceará, já havia atacado a madrasta: “Foi injusto e desrespeitoso com o André, o que foi feito no evento”, escreveu sobre a crítica de Michelle à aliança local. “Foi uma posição definida pelo meu pai.” A lista de excomungados nunca parou de crescer, e nem Tarcísio de Freitas escapou. Para Eduardo, o governador “não é de direita”, apenas um “tecnocrata de centro”. A tropa que orbita Eduardo opera no mesmo tom e com frases repetidas, ao estilo “mentira mil vezes repetida vira verdade”, com comando único, como a própria Michelle sugeriu em seu vídeo-bomba…
O escritor americano Jonah Goldberg já disse que, quando você ouve pedidos de união de grupos políticos, normalmente o que está implícito é “abandone suas ideias e se una às minhas, assim não vamos mais brigar”. Isso não é união, é submissão.Se Flávio quer mesmo união, seria interessante que deixasse claro o tipo de união que ele quer. Ele é um negociador com ampla experiência na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) e no Congresso e é respeitado por isso, mas Eduardo tem uma trajetória bem diferente, assim como os anauês que repetem o que ele quer não deixam que ninguém se esqueça…
Flávio sabe que não se vence eleição presidencial apenas com gente que reza para pneu, nega vacina para filho, pede a volta do AI-5 (Ato Institucional nº 5), acha normal quebrar prédios públicos e bebê detergente. O vazamento de suas conversas com Vorcaro tiveram um impacto enorme em suas intenções de voto e não é hora de alienar eleitores, pelo contrário. Se Flávio quer mesmo unir a direita, deveria começar unindo a própria família…
OPINIÃO
Milton Baldon
Borges se supera no malabarismo em “Eduardo desautorizou a união da direita”. Pintar o quebra-pau público entre os irmãos Bolsonaro como um “debate estratégico refinado” é piada. Não há ideologia nenhuma nesse racha, há desespero e instinto de sobrevivência jurídica em pleno 2026. Flávio quer o Centrão para tentar se blindar após estourar o prazo e esconder as contas dos milhões de Daniel Vorcaro no caso Dark Horse. Eduardo posa de purista porque tenta manter a militância cega enquanto a PF rastreia o esquema Zelle e as offshores da família nos EUA. Borges usa essa falsa análise política como cortina de fumaça para o leitor esquecer que o patrimônio e a liberdade do clã estão sob xeque. O que o colunista chama de “ajuste tático”, o eleitor atento chama pelo nome correto: briga de bastidores para ver quem se salva dos relatórios da Polícia Federal.


