sábado, 20 junho, 2026
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Por Clóvis de almeida

Já comeu um Galak?

Passei muita vontade de comer esse tal de Galak lá pelos anos 60. Naqueles dias, tudo o que minha mãe podia comprar era paçoquinha ou uma maria-mole. Eu juntava litros e garrafas vazias para vender e comprar doce. Saia pedindo nas casas, mas em cada uma tinha um moleque fdp que fazia o mesmo: “eu tamém tô juntano pra comprar paçoca”. Era só o que dava pra comprar. O Galak ainda existe. Não sei o preço de agora, mas antigamente era um doce de rico.

Garrafa era moeda da molecada

Na minha época, juntar garrafas era como sair em busca de latinhas hoje. Dava um bom dinheiro. Ainda é negócio de reciclagem, mas os meninos não se apaixonam mais por garrafas. Logo após o Natal era a grande safra em busca dos frascos de vidros. É que era grande o consumo de vinho em garrafões de cinco litros, que o povo jogava no lixo após as festas. Dava tristeza guando os vendeiros que nos compravam as garrafas passavam os dedos nas bocas dos litros e diziam: “tem um quebradinho…” Nem tinha, mas já era o bastante pra diminuir o preço que eles pagavam.

Vontade não faltava

Além de garrafas, eu juntava lombrigas, de tanta vontade de comer um chocolate daqueles caros. Eu sonhava com o tal do Galak, chegava a ter febre de tanta lombriga. As garrafas eu vendia, mas as áscaris lumbricoides só saiam à força, de metro, depois dos chás de hortelã que minha mãe fazia. Ela também fazia benzimento contra bichas do bucho. Eu odiava o kit de chá com benzeção, porque o efeito era uma caganeira de horas. Divertido era contar as bichas no pinico.

Vingança no chocolate

Quando recebi meu primeiro salário, anos depois, comprei uma dúzia de Galak, me sentei debaixo de uma árvore e pensei: agora eu te pego, doce fio duma égua! Não era mais o que eu pensava e, até hoje, odeio Galak. Minha paixão agora é o Sonho de Valsa. Está bem mais barato que nos anos 60, mas não é mais gostoso como antes.

De saco pra mala

Mudando de assunto: hoje está muito fácil fotografar. Basta um telefone celular com câmera e, clic! Fazer isso numa câmera já era fácil nos anos 70, complicado era sair fotografando com os altos custos da revelação dos filmes. Em preto em branco era caro, colorido então, era o olho da cara. A mais comum era a Kodak Xereta, que vinha com um flash descartável para quatro cliques. Era um saco ter que esperar uma semana para ver as fotos, que, na maioria das vezes, ficavam uma bosta. Tudo preto, borrado, sem foco ou com as cabeças cortadas. Abrir os envelopes com as fotos reveladas era sempre uma emoção que, na maioria das vezes, era motivo de decepção.

Mas valia a pena

Tenho retratos com uma Xereta guardados até hoje.

Minha primeira câmera foi uma Ansco, fabricada nos anos 60. O primeiro filme perdi todinho. Assim que acabei de fotografar as 12 poses do filme 127, abri a câmera e desenrolei o rolo para ver como tinham saído as fotos. Ninguém havia me avisado que filmes só podem ser abertos em quarto escuro de laboratório. Como não vi nada, enrolei novamente e o levei para revelar. O japonês do foto me entregou como estava, afirmando: “Filme queimado, né?. Não pode tirar do máquina. Trás outro que gente tira e não estaraga, né?

Fazer o quê? Fui embora com uma tira preta e com cara de idiota. O duro seria explicar pra minha mãe o que tinha acontecido. Mas, muito esperto, eu nunca contei. Quando ela perguntou onde estavam as fotos, eu respondi prontamente: O burro do japonês estragou tudo!

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