A Ditadura das Certezas
Sou muito grato pelos comentários que as pessoas fazem nas postagens de fotos antigas que publico no Facebook, na página @MoradaAmiga Chateaubriand. Mas, também fico triste com algumas críticas, não por serem críticas, mas por serem uma constatação da falta de atenção ou ignorância de algumas pessoas que insistem em achar defeitos no trabalho alheio só porque não concordam com um ou outro detalhe. Mas não ligo.
E entendo
É que muitas pessoas não tem conhecimento de que em pesquisas históricas é comum existirem divergências de datas e versões e que o mais importante é preservar e compartilhar a memória registrada num texto ou em uma fotografia.
A intenção das postagens de @MoradaAmiga Chateaubriand é divulgar um registro histórico. A fotografia continua histórica, independentemente de data. O valor do registro está na memória que ela preserva. Quando nos vemos diante da maravilhosa obra do famoso quadro “Primeira Missa no Brasil”, de Victor Meirelles, que importa o dia em que se deu o fato?
A memória é mais importante
A história agradece toda contribuição documental. As discussões sobre datas são importantes, mas a foto certamente não deixou de existir por causa delas.
História se constrói com documentos, testemunhos e pesquisa. Se houver elementos que comprovem outra datação, serão bem-vindos. Até lá permanece a informação disponível na publicação, apesar de que algumas pessoas entendem “década de 60” como data precisa do ano de 1960. Infelizmente tem quem não sabe que uma década tem 10 anos.
O País dos Especialistas
Nunca houve tantos especialistas no Brasil. Especialistas em medicina sem diploma, juristas sem formação, investigadores sem distintivo, economistas sem planilha e teólogos sem púlpito. Basta uma notícia surgir na tela do celular para que centenas de pareceres definitivos apareçam em segundos. Todos têm uma resposta pronta. Poucos têm dúvidas.
A Opinião Proibida
Dar uma opinião tornou-se um exercício de risco. Não importa o tema: política, saúde, segurança, educação ou religião. Alguém surgirá para contestar, corrigir ou condenar. Muitas vezes, sem conhecer os fatos, sem ouvir os argumentos e sem admitir a possibilidade de estar equivocado. O debate cedeu lugar ao tribunal, onde cada cidadão se tornou juiz de plantão.
Amigos em Extinção
As divergências que antes enriqueciam as conversas agora encerram amizades. Famílias que atravessaram décadas unidas deixam de se falar por causa de candidatos, partidos ou ideologias. Almoços de domingo transformam-se em campos minados. Grupos de mensagens viram arenas de combate. E, no fim, perde-se aquilo que deveria valer mais que qualquer disputa: a convivência humana.
O Fim das Referências
Houve um tempo em que experiência, estudo e dedicação eram respeitados. Não significava concordar com tudo, mas reconhecer que determinados assuntos exigiam conhecimento. Hoje, a opinião de quem passou quarenta anos estudando um tema frequentemente vale o mesmo que um comentário apressado publicado entre uma fotografia do almoço e um vídeo engraçado. A autoridade do saber foi substituída pela popularidade do palpite.
Portas Fechadas
Talvez o maior problema não seja a discordância. Sociedades livres vivem de opiniões diferentes. O problema surge quando ninguém mais está disposto a ouvir. As portas do bom senso parecem fechadas por dentro. Cada grupo construiu sua própria fortaleza de certezas, onde fatos inconvenientes não entram e argumentos contrários não são bem-vindos.
Um Silêncio Necessário
Em meio a tanto barulho, talvez esteja faltando uma virtude antiga e simples: a humildade. A capacidade de reconhecer que ninguém sabe tudo, que o outro pode ter razão em algum ponto e que mudar de opinião não é sinal de fraqueza, mas de inteligência. Enquanto essa virtude permanecer esquecida, continuaremos vivendo num país onde todos falam ao mesmo tempo, mas cada vez menos pessoas realmente escutam.

