O Evangelho deste domingo (Mt 9,9-13) apresenta o chamado de Mateus. Ao narrar sua própria vocação, o evangelista recorda o momento em que sua vida foi transformada pelo encontro com Jesus.
Mateus era cobrador de impostos, um publicano. Na sociedade judaica de seu tempo, os publicanos eram vistos com desprezo, pois colaboravam com o poder romano e eram considerados pecadores públicos. Excluídos da convivência religiosa e social, carregavam o peso da rejeição e do preconceito.
É justamente a um homem nessa condição que Jesus dirige seu olhar. Ao passar pela coletoria, vê Mateus sentado e lhe faz um convite simples e decisivo: “Segue-me”. Não há exigências prévias, cobranças ou condições. Jesus não espera que Mateus mude primeiro para depois chamá-lo. A misericórdia vem antes da conversão.
O Papa Francisco gostava de dizer que Mateus foi um “misericordiado”, alguém alcançado pela misericórdia de Deus. Jesus não o define pelos seus erros nem pelo seu passado. Vê nele uma possibilidade nova, uma vida que pode ser transformada pelo amor de Deus.
A resposta é imediata: “Ele se levantou e o seguiu”. Mateus abandona a segurança de sua antiga vida para acolher a novidade do chamado. Ele encontra algo que dá verdadeiro sentido à existência, por isso não hesita. Levanta-se e começa um novo caminho.
Esse gesto, porém, provoca escândalo. Ao se aproximar de publicanos e pecadores, Jesus é criticado pelos fariseus. Como um mestre religioso pode conviver com pessoas consideradas impuras?
A resposta de Jesus revela o coração do Evangelho: “Os que têm saúde não precisam de médico, mas os doentes”. Em seguida, cita o profeta Oseias: “Eu quero misericórdia e não sacrifício”.
Com essas palavras, Jesus mostra que a verdadeira religião não se reduz a práticas externas. Deus deseja um coração capaz de amar, perdoar e acolher. A misericórdia é o sinal mais autêntico da fé.
Ao afirmar que veio chamar os pecadores, Jesus revela o rosto acolhedor de Deus, que não exclui ninguém. Sua missão consiste em se aproximar dos que estão feridos, oferecendo-lhes uma nova oportunidade. A santidade não nasce dos méritos humanos, mas da acolhida da graça divina.
A história de Mateus confirma essa verdade. Aquele homem desprezado tornou-se evangelista. Aquele que experimentou a misericórdia se transformou em testemunha dela. Sua vida se tornou um dom para a Igreja e para todos os que, ao longo dos séculos, encontram em seu Evangelho o anúncio da salvação.
Também nós somos destinatários desse olhar misericordioso. Em meio às nossas fragilidades e limites, Cristo continua passando por nossa vida e repetindo: “Segue-me”. Seguir Jesus não é apenas um esforço pessoal ou um projeto humano. É confiar na misericórdia de Deus e permitir que ela transforme nossa vida.
Como Mateus, somos convidados a levantar-nos e seguir o Senhor. E, uma vez alcançados pela misericórdia, tornar-nos também instrumentos de misericórdia para os outros, para que o mundo possa descobrir, através de nossa vida, o rosto compassivo e acolhedor de Deus.
Dom João Carlos Seneme, css
Bispo Diocesano de Toledo

