A palavra bumerangue nos remete ao brinquedo, que é arremessado e volta ao seu ponto de partida. Esperamos que o bumerangue, quando arremessado, retorne às nossas mãos. Pode ser que haja muito vento ou outra intempérie que o desvie da rota, ou seja, alimentamos a expectativa de o plano inicial ser cumprido e nem sempre isto acontece. O que era para trazer alegria e satisfação causa frustração, decepção.
A felicidade, quando buscada incessantemente, em demasia, pode nos causar danos semelhantes ao bumerangue que não voltou para as nossas mãos.
Já se viu em situações que eram para te deixar feliz e, ao contrário, você se sente triste, infeliz?
Muitas vezes, esperamos demais de situações, momentos, pessoas, lugares ou estilos de vida e o que encontramos são as decepções e, por fim, a infelicidade.
Buscar a felicidade incessantemente traz uma imensa frustração. Culturalmente, é perpetuada a ideia de que devemos ser plenamente felizes, como a maior missão a ser buscada, encontrando o máximo de bem-estar, alegria e um sorriso insuperável. É a busca do prazer e abandono do sofrimento.
Devemos cuidar com a armadilha e as consequências que esse ideal pode nos causar, evitando entrar no looping infinito de querer a felicidade e ela lhe escapar pelos dedos.
Um cliente me procurou para tratamento, relatando estar sem energia e ânimo para dar continuidade aos planos traçados. Sentia apatia, tristeza, com crises de choro constantes. Havia acabado de construir a casa dos sonhos, com um filho pequeno que exige atenção e em fase de escrita da dissertação do doutorado, partilhada com as demandas da atuação como professor.
Por um lado, a sobrecarga de trabalho gerando estresse mental, por outro, o cumprimento dos planos traçados. Relata que sua vida foi muito planejada, desde a sua carreira profissional até a vida pessoal, incluindo o casamento e a vinda do filho. O que não previa era o desgaste emocional que a ação dos planos traria. A autoexigência e a culpa juntas formaram o ciclo de sofrimento.
O bem-estar e a felicidade são complexos, não seguem padrões, por mais que tentemos buscá-los.
Devemos considerar que não temos o controle dos acontecimentos e as variáveis desordenadas e negativas podem surgir a qualquer momento. Ainda, o que afeta uma pessoa, não afeta outra.
Não há receita pronta para a felicidade, no entanto, devemos ter como princípio que nem tudo sairá conforme o planejado, que os imprevistos e os infortúnios fazem parte da vida. A felicidade? Está em ser flexível e corajoso o suficiente para aproveitar as dádivas da vida, com seu kit incluindo os obstáculos a serem superados.
Busque situações, pessoas e estilos que façam sentido para você. Busque a felicidade de forma ecológica e ética. Não é uma receita padronizada, é a sua receita, com seu toque singular.
Silvana Pedro Pinto é psicóloga e mestre em Promoção da Saúde. Atende adultos e crianças na Clínica Bambini.

