sábado, 31 outubro, 2026

Por Clóvis de Almeida

Cada tempo um tempo

Os artistas estão mais exigentes e se fazem muito mais importantes do que a mesma classe do passado. Cantores, principalmente, não dão mais sopa como antigamente. Já não vão mais nas rádios do interior e quando chegam na cidade, com raras exceções, evitam dar entrevistas para a imprensa. Como eles contam com a grande vitrine que é a internet, não fazem questão de dar atenção para os pobres repórteres do interior que imploram por uma “palavrinha” ao povo da cidade. A maioria desses artistas estão cagando e andando para entrevistas que não sejam das grandes redes de emissoras.

Já foi diferente

Durante muito anos convivi com a visita de cantores de todos os tipos e estilos, recebendo-os nos estúdios das rádios em que trabalhei. Só não vinham os muito famosos, como Robertos Carlos ou Chico Buarque. Os demais viviam dando sopa em peregrinação para divulgar seus discos. Era normal aparecer do nada um artista famoso nas rádios. Dava entrevista, falava de tudo, tomava café e ia embora.

Nem era surpresa

Era normal receber artistas sem aviso. Assim, conheci e entrevistei vários deles, como, Tonico e Tinoco, Chitão e Xororó e Zé Camargo e Luciano – nos inícios de carreiras, Vando, Dominó, Roupa Nova e até alguns internacionais, como o Patrick Dimon. No auge da Banda Dominó, aqueles garotos apareceram no meu programa da tarde, quando ficamos por duas horas conversando fiado. O telefone não parava de tocar com fãs fazendo perguntas e pedindo alôs. Foi uma festa, os meninos eram bons de prosa. Brincamos muito, foi um grande dia de audiência. Éramos cerca de 100 mil habitantes ainda.

Senta que lá vem história

A partir de 1979, através da Rádio Jornal, promovemos vários shows com artistas que faziam sucesso. Dois deles que me lembro muito foram Silvio Brito e Lilian, em datas diferentes. Nas duas oportunidades lotamos o auditório do cinema. Muita gente em pé, pois não coube todo mundo sentado. Como dizíamos na época, ‘entupetou’ de gente.

Só rabo de galo

Trouxemos Silvio Brito no Cine Avenida. O Zé Costa foi o empresário e eu cuidei da produção do show. Silvio chegou por volta de 7 da noite e eu o aguardava na rádio. Tudo pronto para leva-lo com a equipe ao hotel. A equipe se hospedou, mas ele me pediu para ir a um boteco, queria tomar uns “gorós””. Fomos a um dos pontos famosos da cidade, onde a turma do futebol se reunia nos fins de tarde. Ele entrou, cumprimentou a meia dúzia de gente que havia e se sentou no banquinho do balcão, daqueles que cachaceiro adora. Perguntou o nome do botequeiro e lascou: me dá um rabo de galo! Pra quem não sabe, rabo de galo é uma bebida alcoólica que leva vermute tinto (doce), Cynar e cachaça.  No susto, eu pedi só uma sodinha.

Papo vai, papo vem

Com o primeiro gole, Silvio Brito puxou conversa com o primeiro do lado. Era um pintor de paredes que não me recordo o nome, bom de papo que só ele. Daí para os outros entrarem na conversa foi um só um palito. Nesse momento, saí para ver como estavam as coisas ali do lado, no cinema. O bar era num antigo prédio onde hoje é o banco Itaú.

Dê lhe pinga!

Voltei ao bar diversas vezes até o início do show para ver se o artista queria tomar um banho. Mas que nada! O papo estava bom e, me pareceu, a pingaiada ainda melhor.

Agora vai!

Tudo pronto para o show, casa lotada, gente saindo pelo ladrão e banda pronta. Corri no bar e peguei o homem pelo braço. “Vamos que está hora!”. Silvio se levantou de boa, como se não tivesse tomado nada. Enquanto ele se despedia dos novos amigos fui acertar a conta das pingas. Foram 8 rabos de galo mais duas doses de uísque sem gelo. Pensa num cabra bom de cachaça!

Luzes, ação!

Fomos andando a curta distância até o cinema pela calçada e entramos no corredor ao lado do cinema, que dava para as portas laterais de emergência. Na última, na cara do palco. Bati na porta como combinado e em seguida a banda começou a tocar o sucesso de Silvio Brito na época. Ele se benzeu, eu abri a porta e ele entrou cantando “Tá todo mundo louco, ôba! – Tá todo mundo louco…!”, para os gritos da plateia que aplaudia e cantava junto. Foi um baita show!

Grand finale

Se você pensa que acabou a história, engana-se! Tem mais. Acabado o show, perguntei a Silvio se então ele queria jantar. Disse que não, pediu para voltar ao bar. Pra sorte dele, ainda estava aberto por causa do movimento do cinema. Ele tomou então mais dois rabos de galo, entrou no carro junto com seus dois músicos e foram embora. Pouco tempo depois Silvio Brito se converteu ao mundo gospel, canta com freiras padres e faz pregação. Acho que hoje ele só toma vinho doce asa de pomba.

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