sábado, 10 outubro, 2026
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Por Clóvis de Almeida

De perto tudo é mais real

Um colégio tem levado grupos de alunos para conhecer o funcionamento de empresas, comércio e indústria. Atitude louvável de mostrar na prática a profissão, o profissional e o chamado “como se faz” que merece ser repetido por todas as escolas. Não se trata de uma novidade, mas de uma atividade que as escolas, de maneira geral, poderiam empreender com mais frequência, não só levando alunos para conhecer atividades, mas permitindo profissionais de toda e qualquer atividade nas salas de aula a falar de suas profissões. Portanto, parabéns a essa instituição e às demais escolas que mantém esse capítulo em suas disciplinas.

Exemplos no mundo

Em muitos países é uma prática comum a apresentação de pessoas em salas de aula com a finalidade de falar do trabalho que realizam. Os pais dos alunos são os primeiros a participarem; além de ensinar o respeito para com todas as profissões, as escolas procuram com isso fazer com que as crianças tenham mais respeito pelos pais ou que não sintam vergonha deles, pois toda profissão é digna.

Valorizar é tudo de bom

Se todo trabalho é digno de respeito, precisam ser valorizados. Do mais alto magistrado ou da maior autoridade política até o gari que recolhe o papelão nas ruas, passando pelo varredor que passou a vassoura no rastro de lama do carro da madame. Todos temos um lugar de respeito no panteão da cadeia produtiva do mundo, pois somos parte da engrenagem que move o universo.

Galinha? O que é isso?

Nas capitais e outras grandes cidades do país as crianças crescem longe dos campos onde se produz alimento. É comum encontrar crianças que já passaram dos 10 anos de idade e ainda não conhecem uma galinha de perto. Normalmente, se assustam ao ver uma vaca pela primeira vez, mesmo na adolescência. Estes, provavelmente também nunca viram um pé de soja e não sabem que cheiro tem o ar depois da chuva na roça. Com certeza nunca provaram um torresmo apurado na hora e nem o gosto da laranja que se apanha para chupar na sombra da laranjeira que a fez nascer. Eles sabem que nariz de porco se parece com tomada somente porque viram em fotos, filmes ou no Youtube.

Só no virtual

Esses meninos das cidades grandes já não estão mais sozinhos. Aqui mesmo no interior já temos crianças tão urbanizadas que não conhecem a vida colona. O computador, o celular (principalmente) e o videogame tomam todo o tempo, não sobrando dia para uma visita no campo. Com isso o tempo passa e o mundo rural é só numa aula de escola ou no frango congelado que vem do mercado.

Adeus colônias!

O pior de tudo é que esse grupo de jovens que crescem rodeados de agricultura sem viver nela está aumentado. Não temos mais casas no meio da roça. No campo agora só se vê plantio, gado, granjas, lagoas, tratores e colheitadeiras. As colônias que marcaram um estilo de vida já não existem mais. O agricultor agora mora na cidade. Não se mata o porco na porta da cozinha. Isso é trabalho de frigorífico. Não se planta um pé de alface. Tem lá na feira e na venda da esquina. Lá também tem mandioca, linguiça, chouriço, bolo de milho, pamonha e até curau.

Só na tecnologia

As facilidades que a mecanização da lavoura trouxe permite que o dono da terra deixe de ser camponês e fique apenas no posto de agricultor. Se isso trouxe comodidade é ótimo. O agricultor merece essas benesses e seus filhos precisam estar mais perto da escola, mas por outro lado, acabam ficando longe da roça.

A profissionalização cada vez mais técnica do agricultor faz com que o país produza mais, com menos esforço. Isso é muito bom, mas as nossas crianças precisam conhecer de perto como é o trabalho de produzir alimentos, não só a atividade fria das máquinas, mas o esforço humano que sulca e semeia a terra. Isso não quer dizer colocar as mãos novamente em arados, mas estar acima de qualquer máquina. Ainda é tempo, pois o “glamour” de ser camponês vai ficando cada vez mais raro. Um dia será só uma lenda.

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