O tema da Liturgia de deste domingo é o perdão, um apelo a romper a lógica da vingança, a corrente do ódio, a prisão do rancor e da ira. É um convite a reencontrar o amor e a generosidade, recordando nossa comum pertença a Deus, de quem somos imagem: “Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor”.
Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar o irmão que o ofende. Propõe sete vezes, número já generoso aos olhos judaicos. Jesus responde: “Não sete vezes, mas setenta vezes sete” (Mt 18,22). Não se trata de uma conta matemática, mas da revelação de que o perdão não pode ter limite, porque Deus mesmo não limita a sua misericórdia para conosco.
A parábola que Jesus conta em seguida esclarece o porquê. Um servo devia ao seu rei dez mil talentos – uma cifra astronômica, impossível de pagar em toda uma vida. O rei, movido de compaixão, perdoa tudo. Mas esse mesmo servo, ao encontrar um colega que lhe devia cem denários – uma quantia pequena, insignificante diante da que ele acabara de receber de graça –, não tem piedade e o manda prender.
O contraste é intencionalmente exagerado para deixar clara a mensagem: diante de Deus, somos antes de tudo devedores. Antes de cobrar as faltas de quem nos ofendeu, precisamos reconhecer que fomos alcançados por um perdão que jamais poderíamos merecer ou retribuir por nossas próprias forças. Quando perdemos essa consciência, o coração se fecha. Passamos a olhar os outros como nossos devedores, calculamos até onde vai nossa paciência, estabelecemos limites para o perdão e começamos a fazer a contabilidade das ofensas.
Cada um de nós é devedor de uma soma enorme, impossível de restituir. Por isso Cristo não pôde simplesmente nos ajudar, mas teve de nos salvar, oferecendo livremente a sua vida na cruz: “Pois foi para isto que Cristo morreu e voltou à vida: para ser Senhor de mortos e de vivos” (Rm 14,9).
O Evangelho propõe outra lógica: viver do dom recebido. Perdoar não é um gesto isolado, praticado quando nos sentimos generosos ou quando o outro “merece”; é um modo de ser, um respirar constante, que nasce da memória agradecida de que fomos perdoados primeiro. Por isso Paulo diz que “ninguém vive para si mesmo”: vivemos e morremos pertencendo ao Senhor, e é essa pertença que torna possível a fraternidade real, não idealizada.
O Evangelho nos chama a assumir a realidade não apenas a partir daquilo que julgamos ser nosso direito, mas a partir da novidade de Cristo e da lógica do Reino. Reconhecer Deus como Pai exige de nós uma consequência concreta: reconhecer o outro como irmão e assumir com responsabilidade esse vínculo. A fraternidade cristã nasce dessa pertença comum ao Senhor e nos recorda que nossa vida nunca é uma realidade isolada: “Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor” (Rm 14,7-8).
Dom João Carlos Seneme, css
Bispo Diocesano de Toledo


