Eu só peço a Deus que a dor não seja indiferente
Que a morte não me encontre, um dia,
Solitário sem ter feito o que queria
Eu só peço a Deus que a injustiça não me seja indiferente
Pois não posso dar a outra face
Se já fui machucado brutalmente
Eu só peço a Deus que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Toda pobre inocência desta gente
Eu só peço a Deus que a mentira não me seja indiferente
Se um só traidor tem mais poder que um povo
Que este povo não esqueça facilmente
Eu só peço a Deus que o futuro não me seja indiferente
Sem ter que fugir desenganado
Para viver uma cultura diferente.
Lendo meditando o poema acima, percebo que o oposto do amor não é o ódio e sim a indiferença. Olhando a nossa história vemos que o maior problema não está entre os que, dominam e os dominados mas entre aqueles que, percebendo essa situação, não se posicionam, são indiferentes.
Como cristãos, não podemos ser indiferentes, temos que ser pessoas autênticas, com posições firmes, baseadas na proposta libertadora de Jesus Cristo. No entanto, estamos longe da bonita proposta de Jesus. Temos apenas a alcunha (apelido). Quando lemos Atos dos Apóstolos 4.32-37, percebemos como estamos distantes do verdadeiro cristianismo, pois lá lemos: “Todos os que creram pensavam e sentiam do mesmo modo. “ Ninguém dizia que as coisas que possuía eram somente suas, mas todos repartiam uns com os outros tudo o que tinham. Não havia entre eles nenhum necessitado”. Como nós vivemos nas nossas comunidades cristãs?
Vivemos em uma sociedade marcada por grandes avanços tecnológicos e inúmeras possibilidades de comunicação. Nunca foi tão fácil falar com alguém, saber o que acontece do outro lado do mundo ou compartilhar informações. Paradoxalmente, porém, muitas pessoas parecem cada vez mais distantes umas das outras. Nesse cenário, a indiferença se torna uma das formas mais silenciosas e dolorosas de crueldade humana.
Ser indiferente é escolher não enxergar a dor do outro, mesmo quando ela está diante de nossos olhos. É perceber que alguém precisa de ajuda e simplesmente seguir em frente. É ouvir um pedido de socorro e fingir que não escutou. Muitas vezes, essa atitude não nasce da falta de capacidade para ajudar, mas da ausência de amor, empatia e responsabilidade pelo próximo.
O amor, nesse sentido, não deve ser entendido apenas como sentimento entre familiares ou casais. Amar também significa respeitar, acolher, ouvir e reconhecer a dignidade de cada ser humano. Uma sociedade verdadeiramente humana não pode aceitar que pessoas sofram sozinhas enquanto outras simplesmente fecham os olhos. Pequenos gestos de solidariedade podem representar uma grande diferença na vida de alguém.
É importante compreender, portanto, que combater a indiferença é uma responsabilidade coletiva. Não precisamos resolver todos os problemas do mundo, mas podemos começar olhando para quem está ao nosso lado. Um gesto de atenção, uma palavra de conforto, uma ajuda oferecida no momento certo ou simplesmente a disposição para ouvir podem demonstrar que aquela pessoa não está sozinha.
Dessa forma, a maior crueldade humana talvez não esteja apenas na capacidade de ferir, mas na capacidade de ver alguém sofrendo e não sentir nada. A indiferença transforma a dor alheia em algo invisível e permite que injustiças continuem acontecendo. Por isso, recuperar o amor e a empatia é também recuperar nossa própria humanidade. Afinal, quando deixamos de nos importar com o sofrimento do outro, todos perdemos um pouco daquilo que nos torna verdadeiramente humanos.
* Filósofo e teólogo – professor de filosofia, antropologia e história.
Professor da Rede Estadual de Educação
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