O tão esperado período de férias escolares pelas crianças é sempre desafiante para os pais, uma vez que a maioria permanece trabalhando e conciliar o recesso dos filhos e a atenção é sempre desafiante. Dentre os inúmeros desafios, o uso das telas merece atenção redobrada.
Horas livres podem ser um convite natural para o uso excessivo de tablets, videogames e celulares. Acabam se tornando companheiros quase permanentes das crianças. Embora a tecnologia ofereça inúmeras possibilidades de aprendizado e entretenimento, seu uso excessivo e sem supervisão pode trazer riscos importantes ao desenvolvimento infantil.
Não é raro encontrar crianças passando seis, oito ou até mais horas por dia conectadas. Quando isso acontece, atividades fundamentais para a infância vão sendo deixadas de lado: brincar ao ar livre, desenvolver a criatividade, conviver com a família, praticar esportes, ler um livro ou simplesmente experimentar o tédio, tão importante para estimular a imaginação.
Um aspecto que merece atenção especial é a exposição a conteúdos inadequados e aos perigos do ambiente virtual. Muitas crianças navegam pela internet sem que os pais saibam exatamente o que estão assistindo, com quem estão conversando ou quais jogos estão acessando.
Pedofilia, desafios perigosos, exposição excessiva da própria imagem e conteúdos violentos ou impróprios fazem parte de uma realidade cada vez mais presente. Muitos pais tentam orientar os filhos sobre o que não podem fazer, no entanto, muitas vezes os algoritmos das redes sociais apresentam vídeos e conteúdos inadequados poucos minutos após o início da navegação, sem que a criança tenha maturidade para compreender ou filtrar aquilo que vê.
É importante lembrar que entregar um celular a uma criança não significa apenas oferecer um brinquedo tecnológico, significa abrir uma porta para um universo imenso e muitas vezes, desconhecido. A supervisão dos pais não deve ser entendida como invasão de privacidade, mas como um ato de cuidado e proteção.
É importante que os adultos conheçam os aplicativos utilizados pelos filhos, estabeleçam horários para o uso das telas, ativem ferramentas de controle e as conversas sobre o uso seguro devem ser frequentes. Da mesma forma que ensinamos uma criança a atravessar uma rua com segurança, também precisamos ensiná-la a navegar pela internet.
A tecnologia faz parte da nossa realidade, no entanto, é possível que no período de férias dos filhos a prioridade seja dada à outras atividades e o uso das telas seja o último recurso a ser acessado. As histórias, memórias e experiência infantis devem estar relacionadas ao brincar espontâneo, atividades ao ar livre, com os familiares e amigos.
Ignorar os riscos que o uso das telas possa trazer é uma ingenuidade. Então, fica o alerta. As consequências podem ser prejuízos emocionais não só para os filhos, mas também para o pais, com sentimentos de culpa por falta de supervisão e orientação adequada.
A criança deve sentir que os pais são o seu porto seguro e que podem recorrer a eles quando necessário. Pais que acompanham, orientam e participam ativamente da vida dos filhos transmitem valores, fortalecem a confiança e mostram que, mesmo em um mundo cada vez mais conectado, nenhuma tela substitui a presença e o olhar de quem cuida.
Silvana Pedro é psicóloga e Mestre em Promoção da Saúde.
Atende adultos e crianças na Clínica Bambini



