Carne e carniça
Quando os sessentões de hoje eram moleques, matava-se a carne que se comia, no meio do mato, em matadouros, onde a gurizada se divertia com os bichos mortos escarniados em carretilhas, pendurados nas árvores. Vi muito disso na Rua do Bosque e na Rua dos Pioneiros, na década de 60. Os mosquitos dividiam com os meninos a curiosidade, com a vantagem de que os insetos se fartavam de sangue e colocavam ovos nas carnes que iam aos açougues, em cima de carroças, cobertas com lençóis encardidos, cheios de sangue, ou embaixo de folhas de bananeiras.
A gente não ligava
Uma vez nos açougues, que não tinham geladeiras, tudo era dependurado em ganchos fixados nas paredes, onde se faziam vitrines com os quartos de bois, porcos, linguiças e outros adereços esfoliados dos animais abatidos. Em cima do balcão, uma bacia sobrevoada por varejeiras oferecia deliciosos torresmos para quem quisesse experimentar as iguarias. Linguiças de todos os tipos se exibiam em varais pendurados, onde moscas se fartavam, ao mesmo tempo em que deixavam ovos de descendentes.
Entra vivo e só sai morto
Nesse tempo, não se falava em produto de qualidade, higiene total, nem fiscalização do que o povo comia. Os sessentões comeram muita carne vencida, muitos ovos de varejeiras e linguiças feitas com tudo o que era sobra, inclusive restos de carnes pisadas no chão, infectadas por fezes ou cuspe de quem as manipulava, por tosses e espirros, involuntários, ou por raiva do patrão.
Tudo como dantes…
Quem acha que isso mudou, engana-se. Em muitos abatedouros tudo continua como antes, a diferença é só o nome: hoje, chamam de frigorífico.
Claro que qualidade de produção existe na maioria das indústrias, porém, nunca haverá uma garantia total de que estamos comendo um produto absolutamente sadio. Estaremos sempre à mercê, ou seja, reféns, do que as autoridades dizem garantir. Não há como acreditar, enquanto não existir tecnologia que faça avaliação, aprovação e liberação dos produtos que consumimos, da mesma forma que o IPEM afere pesos e medidas. Assim, não há garantias de que o mamão do mercado não tem agrotóxico, que alface não tem veneno ou que a rúcula não está contaminada com o musgo do caramujo. Não temos certeza de nada.
Só mudaram os nomes
E no meio dessa modernidade plastificada, ainda seguimos mastigando incertezas. O leite “integral” pode carregar soda e conservantes; o mel, açúcar queimado; o café, palha moída; o peixe congelado talvez tenha atravessado continentes apodrecendo lentamente sob gelo vencido. Frangos crescem em tempo recorde à base de hormônios e antibióticos, embutidos escondem corantes e química suficiente para colorir parede, enquanto frutas reluzentes exibem beleza de propaganda, mas carregam veneno invisível na casca e na polpa. Mudaram as embalagens, os laboratórios, os carimbos e os discursos. O medo antigo das moscas virou desconfiança moderna dos rótulos. Antes, a carniça vinha coberta por lençóis encardidos; hoje, chega embalada a vácuo, com selo de qualidade e prazo de validade.



