quinta-feira, 30 abril, 2026

Rifa de um noivo

Sou um rapaz de bom caráter, bonito, garboso, com todas as perfeições físicas que podem agradar qualquer mulher. Porém, não tenho dinheiro para o casamento. Por isso, me ofereço da seguinte maneira: Vou fazer um sorteio da minha pessoa num concurso de rifa com 600 números, onde podem concorrer solteiras, donzelas e viúvas, com menos de 32 anos de idade. O preço de cada bilhete é de mil reais. A feliz ganhadora terá direito à minha pessoa e ao prêmio da rifa, sendo que, para receber o dinheiro terá que me desposar primeiro. Os bilhetes estão à venda na casa de loterias no centro da cidade.

O anúncio acima foi publicado no jornal O Spectador Brasileiro, do Rio de Janeiro, com data de 05 de julho de 1824, com o título original de “Casamento por uma rifa”.

Como não é assinado por ninguém e com um chapéu de editoria nominado “Micelâneas”, é bem provável que seja uma brincadeira, ou “pilhéria”, como se dizia na época, um assunto publicado como “calhau”, texto qualquer para tampar um buraco a fim de fechar a página do jornal, já que foi estampado no final da última coluna.

Mas, chama a atenção pela ideia original. Nos dias de hoje, provavelmente não daria certo. Mas há 200 anos, quem sabe? Os casamentos tinham por obrigação o tal do dote, pago pelo pai da noiva. Assim, muitas moças pobres ficavam sem se casar por falta de dinheiro. E, se eram pobres, também não conseguiriam comprar a rifa, uma vez que o valor real pedido era de 20 mil réis, em 1824, algo em torno de 120 mil reais, no dinheiro de hoje, 2026.

O jornal de quatro páginas é a terceira edição do periódico publicado pela gráfica do governo imperial, com o objetivo de falar da vida diária do imperador Dom Pedro, de política, comércio e registrar fugas de escravos, algo comum na imprensa daquela época.

Descobri essa “joia” da imprensa nacional folheando um livro antigo que me caiu às mãos há mais de 35 anos. É uma raridade com coletâneas de exemplares do Jornal do Commercio e seu antecessor, O Spectador Brasileiro, com publicações de 1827 a 1908. Contém centena de anúncios sobre venda e compra de escravos, além de crônicas curiosas, como essa do noivo que se rifa. É um livro de 340 páginas, de 1987, em comemoração aos 160 anos de existência do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, medindo 28cm x 35cm, pesando mais de um quilo.

Fica a dica: está sem grana para se casar? Rife-se! Como sempre, há uma tampa para uma panela e não vai faltar doida (ou doido) que arrisque um “zóio”. Vai que dá!

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Assis Chateaubriand