O tão desprezado sentimento de vingança exerce um papel fundamental na saúde psíquica das pessoas. É uma forma de defesa e sinaliza a necessidade de se mover diante de uma ameaça. É um componente natural da condição humana, portanto, é saudável e por si só não constitui um problema.
Torna-se um problema quando o desejo de retaliação é desproporcional à agressão sofrida, quando o verdadeiro desejo é de exterminar o agressor, ou seja, fazer “justiça com as próprias mãos”. Essa é uma lógica errônea. Não é possível reparar um erro causando danos aos outros.
Quem deseja vingar-se, acredita que sua vingança será bem-sucedida quando o agressor reconhecer o mal causado, o que pode não acontecer, de fato. Muitas vezes, a vingança redobra o mal. Neste sentido, não existe apaziguamento.
A ação da vingança é acompanhada pela sensação de prazer, mas também é uma agressão e pode causar uma reação negativa na pessoa atingida.
O sentimento de vingança, embora muitas vezes intenso e impulsivo, pode ser transformado em uma força construtiva quando direcionado de maneira correta.
Em primeiro plano, reconheça o sentimento de vingança, ou seja, não precisa fingir que não está sentindo nada. Em seguida, questione: “Por que isso me afetou tanto?” Esse movimento abre espaço para o autoconhecimento, pois permite identificar dores antigas, expectativas frustradas ou limites que não foram respeitados. Com essa compreensão, a energia emocional deixa de ser direcionada para o outro e passa a ser investida em si mesmo, cuidando da própria saúde emocional, estabelecendo limites mais claros, desenvolvendo novas competências ou buscando relações mais equilibradas e respeitosas. Dessa forma, a vingança perde força porque a pessoa deixa de precisar “reparar” a dor através do outro e passa a se fortalecer internamente, transformando uma emoção destrutiva em um impulso para crescimento e amadurecimento emocional.
Também contribui para libertar-se do desejo de vingança a tentativa de reconstruir a imagem de quem o afetou. Olhe para suas fragilidades. Isso automaticamente fará diminuir o ódio e, muito importante, pratique o perdão. Não é necessário esquecer o que aconteceu, mesmo porque isso dificilmente irá acontecer, mas perdoar. O perdão é um bálsamo para quem o pratica. Invista em si mesmo, praticando o bem e planejando ações saudáveis para sua vida. São formas de, ao mesmo tempo, combater o desejo de vingança e cuidar de si.
Silvana Pedro Pinto é psicóloga e mestre em Promoção da Saúde.
Atende crianças e adultos na Clínica Bambini.

