quinta-feira, 30 abril, 2026

Por Clóvis de almeida

Anos de chumbo

Nos anos 60 e 70 a “boca” era quente aqui por essas bandas do Paraná. Muita gente que comprou terras rurais acabou descobrindo, na hora de abrir a mata, que já tinha alguém na propriedade. Eram posseiros, que se instalaram sem nenhuma documentação, apenas invadiram e se instalaram, com barracos montados e ferramentas para tirar madeira. Em muitas situações, uma boa conversa resolveu o problema, mas alguns casos teve um final na base da bala ou, no mínimo, na ameaça de balas.

Advogado peitudo

Meu amigo José Bolivar Bretas foi um dos primeiros advogados a chegar nessas paragens e a pegar causas de compradores de lotes invadidos. Um dos causos dele é sobre uma daquelas invasões em que ele foi até aos invasores e que, “de boa”, pediu que saíssem. Foi aí que um dos elementos no local, conhecido por “galo cego”, mandou na lata: Não venha mais aqui, porque o senhor vai ser recebido na bala!”.

O mocinho

No outro dia, Dr. Bretas vestiu seu colete, no melhor estilo Clint Eastwood e um chapéu tipo Django. Na cintura da calça jeans, um coldre tipo bang-bang italiano com um revólver Smith Wesson, calibre 38, cabo de madrepérola, que ele havia ganho do pai. Acompanhado de 13 homens e um trator de esteira rumou para a antiga Gleba Cinco Mil, região onde hoje é o Patrimônio Nice.

Os bandidos

Assim que chegaram próximo ao barraco das terras invadidas foram recebidos com pipocos de tiros vindos do lado dos invasores. Gêrônimo, o tratorista, ergueu a lâmina da esteira e partiu para cima do barraco, enquanto a turma dos “mocinhos” carcava fogo nos bandidos. Teotônio Preto era um dos 13, ele liderou a tomada do local, expulsando o bando invasor, que sumiu pra sempre na mata.

Vizinho paga o pato

Não sei se morreu algum e se houve feridos no entrevero. Mas, quem pagou o pato foi o vizinho das terras invadidas, José Paraíba. O trator usado para mandar os invasores embora foi deixado no sítio dele. Durante a noite seguinte os bandidos voltaram e, julgando que Paraíba estava mancomunado com a turma do Bretas fizeram vingança. Paraíba levou três tiros e morreu no hospital do Dr. Luiz, três dia depois.

Chega a cavalaria

Segundo Bretas, nos dias seguintes muita gente foi ameaçada de morte por causa da expulsão. Até o juiz de Direito e o diretor da Colonizadora Adízio Figueiredo. O fato provocou a Justiça, que convocou o COE – Comandos e Operações Especiais da Polícia Militar de São Paulo, com um efetivo de 50 homens especializados no combate à contra guerrilha rural. Todos armados de metralhadores e acompanhados de cães pastores. Os bandidos foram apanhados e presos numa fazenda em Brasilândia do Sul.

O herói

Dr. Bretas lembra que, por esse episódio, ficou conhecido como “o advogado pistoleiro”.  Ele conta ainda que trabalhou em dezenas de casos de invasões de terras naquela época. Fez inúmeros júris. “Participei de uma média de 8 júris por mês naqueles anos”, garante ele.

Dr. José Bolivar Bretas foi um advogado e cidadão muito importante nos primeiros anos do município de Assis Chateaubriand. Hoje mora em Cascavel, continua atuando como advogado e professor de Direito. Sujeito sério, acima de tudo um grande amigo, cabra bom de prosa, alguém que vale a pena ouvir.

Últimas notícias

Assis Chateaubriand