quinta-feira, 30 abril, 2026

Empoderamento feminino é uma ilusão?

O termo empoderamento feminino tem ganhado força nos últimos anos. Nas redes sociais, na publicidade e em discursos nos mais diversos âmbitos, propaga-se a imagem da mulher independente, segura de si e dona das próprias escolhas. No entanto, é preciso refletir. Essa é a realidade da maioria das mulheres?

A resposta nos leva à frustração. Aponta para uma verdadeira ilusão coletiva. O empoderamento, como o termo indica, ainda é um privilégio de uma parcela pequena da população feminina. Enquanto algumas mulheres conquistam autonomia financeira, liberdade emocional e espaço de fala, muitas outras seguem enfrentando, muitas vezes em silêncio, situações de violência, dependência e invisibilidade. Quando observamos a proporção de mulheres que ocupam cargos públicos ou de chefia, é irrisório quando comparado ao número de homens que os ocupam.

A romantização da mulher forte pode, inclusive, se tornar um peso. Espera-se que ela dê conta de tudo, vida profissional, família, emoções e o autocuidado, relegando a segundo plano a fragilidade emocional. O ideal acaba por desconsiderar as desigualdades. Nem todas as mulheres têm acesso às mesmas oportunidades.

Para a saúde mental, as consequências são notáveis. Por um lado, as mulheres que internalizaram a ideia de serem fortes o tempo todo enfrentam a dificuldade no reconhecimento do próprio sofrimento e a busca por ajuda. As que vivem em contextos de violência, muitas vezes permanecem sozinhas, sem pedir ajuda e sem apoio. O sofrimento, nesses casos, é individual e, ao mesmo tempo, um problema social.

Observa-se também uma dificuldade, por parte de muitos homens, em lidar com a mulher contemporânea, a que questiona, se posiciona e não aceita relações desiguais. Essa tensão mostra o frágil limiar entre modelos tradicionais de gênero e as novas configurações sociais. Quando não há espaço para o diálogo, esse conflito pode se transformar em desvalorização ou até violência.

Falar sobre empoderamento feminino, portanto, exige responsabilidade. Não se trata apenas de celebrar conquistas, mas reconhecer as lacunas que ainda existem. É necessário ampliar o olhar para aquelas que não aparecem nas estatísticas positivas, que não ocupam espaços de destaque e que, muitas vezes, sequer conseguem nomear o que vivem.

Talvez o verdadeiro empoderamento comece quando deixamos de idealizar a mulher que dá conta de tudo e passamos a enxergar, com mais sensibilidade, a mulher real, com suas lutas, limites e necessidades. É nesse encontro com a realidade que se abre espaço para transformações mais profundas, de forma individual e coletiva.

Silvana Pedro é psicóloga e mestre em Promoção da Saúde.

Atende adultos e crianças na Clínica Bambini.

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