Estamos encerrando a semana de conscientização do autismo e pouco abordamos sobre a condição na vida adulta. Por muitos anos, acreditou-se que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) era uma condição exclusivamente infantil, identificada e diagnosticada na primeira infância. No entanto, hoje sabemos que muitas pessoas chegam à vida adulta sem um diagnóstico formal, passando a maior parte de suas vidas sem entender plenamente suas dificuldades e particularidades.
Autistas que verbalizam ou que não têm deficiência intelectual geralmente têm suas dificuldades relacionadas ao espectro negligenciadas, por não serem tão perceptíveis em um contato breve e superficial. Assim, cada vez mais adultos se deparam com o diagnóstico tardio, gerando muitas vezes questionamentos e confusão.
O processo de busca pelo diagnóstico pode ser longo e desafiador. Muitos profissionais da saúde ainda possuem conhecimento limitado sobre como o autismo se manifesta em adultos, especialmente em mulheres, que podem apresentar sinais mais sutis ou mascarados por estratégias de adaptação social. A falta de informação e de acesso a especialistas qualificados pode fazer com que esse caminho seja solitário e frustrante.
É comum autistas adultos demonstrarem dificuldade em manter conversações ao não saber o que dizer ou não saber a hora de começar e parar de falar. Tendem a pensar exaustivamente sobre um mesmo assunto, ouvir sempre a mesma música e ter uma sequência específica para tarefas do dia a dia. Apresentam a necessidade de categorizar vivências para compreender o mundo à sua volta e ansiedade após o trabalho ou situações de socialização, por excesso de estímulos e por se esforçar para esconder comportamentos associados ao autismo.
Também há dificuldade em compreender e assimilar algumas nuances sociais, tais como tom de voz, linguagem corporal e expressões faciais.
Quando procuram por um diagnóstico tardio, é muito provável que já passaram parte da vida acumulando frustrações em virtude das tentativas de conseguir se encaixar no que é esperado socialmente. Prejuízos de uma vida sem suporte incluem não conseguir encontrar e manter o emprego, cultivar relacionamentos amistosos e amorosos, manter a organização do seu cotidiano ou alcançar a conclusão dos cursos de formação. Normalmente, não têm a ideia dos porquês das grandes dificuldades.
O diagnóstico traz luz às dificuldades, ao mesmo tempo em que exige uma reconstrução da própria identidade e uma revisão do passado sob uma nova perspectiva. Por outro lado, quando finalmente alcançado, o diagnóstico pode trazer um grande alívio. Compreender-se dentro do espectro autista permite que a pessoa valide suas experiências, ajuste expectativas e busque apoios adequados.
O autismo é uma condição diversa e não se encaixa em um modelo único de apresentação. Cada indivíduo no espectro possui experiências e necessidades únicas. Compreensão e respeito pela diversidade são essenciais.
| Silvana Pedro Pinto é psicóloga clínica e educacional. Atende adultos e crianças na Clínica Bambini. |

