domingo, 10 maio, 2026

Uma estória de amor

Uma estória de amor

Aos dezessete anos de idade, Ana, habitante de um gigantesco deserto de pedra, dividindo um espaço minúsculo para viver com milhões de outros habitantes, vivia dominada por um desejo. De conhecer o amor. E havia um só pensamento em sua cabeça: Como vou fazer para conhecer o amor?

Outro dia ela andava – já estava para escurecer – por entre pedras e bura­cos, pulando de vez em quando sobre pequenos abismos, desviando de todo tipo de lixo pontiagudo, cortante e mal-cheiroso e de olhares e mãos escuras que avançavam em sua direção.

Ela sentia o medo tomar conta de seu corpo, suas mãos tremiam e os pés pareciam pertencer a outra pessoa. Seu coração batia forte, os seus olhos se enchiam de lágrimas, ela já não percebia nenhum contorno das pedras sobre as quais pisa­va. Seus braços faziam movimentos descontrolados à procura de algum sustento, quando, de um momento para o outro, o próprio chão se levantou com incrível rapidez e bateu com toda a força contra a sua testa.

Depois de percorrer uma grande planície em direção à alvorada, que lentamente crescia no horizonte à sua frente, Ana deixou-se cair embaixo de uma árvore. Com a cabeça erguida, curiosa e cheia de expectativa, ela esperou o sol nascer.

Com os primeiros raios de luz ela viu, admirada como diante de um milagre, aparecerem, também, teias de aranha, construídas com grande habilidade e arte. Nelas milhares de gotas de orvalho cintilavam em todas as cores. Bichinhos das mais variadas formas subiam e desciam pelas folhas da grama ao seu redor, levanta­vam vôo e pousavam. Uma leve brisa fazia dançar as folhas da árvore e brincava com os cabelos de Ana. Ela teve que rir, virou-se de costas e se deitou. Aí ela per cebeu o imenso céu que se abria por sobre seus olhos. As nuvens se tingiam rapidamente, trocando de cor e de forma. O sol aquecia levemente o seu rosto e ela fechou os olhos. Sentiu-se como criança ou como mulher ou como anciã. Sentiu o que não era totalmente novo, mas pela primeira vez sabia o que sentia: um profundo sentimento de receber amor, de ser amada.

Quando Ana acordou ela estava deitada dentro de uma das inúmeras cavernas habitadas pelos milhares de habitantes do deserto. Pouco a pouco os seus olhos con­firmavam o que seu corpo já sentia: muitos olhos e muitas mãos a acariciavam, consolavam e seguravam a sua cabeça que doía.

Ah, eu não acredito, ela sussurrava, não pode ser … e olhava para toda essa gente que tanto medo lhe havia metido. Antes. Será que somos capazes de entender a plenitude do amor?

José Pardinho Souza é filósofo e teólogo – professor de filosofia, antropologia e história e Professor da Rede Estadual de Educação.
pardinhorama@gmail.com

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