sábado, 5 setembro, 2026
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Por Clóvis de Almeida

O túnel do tempo

Viajar ao passado é um privilégio de quem já se distanciou dele o suficiente para chama-lo de passado. A distância que nos separa do presente e de dias que já vão longe é o tamanho que chamamos de tempo. Para os mais novos, o ontem é logo ali, para quem já coleciona algumas décadas, o passado é uma viagem que ainda existe ao final do túnel do tempo.



Música é passaporte

Nada nos abre mais a porta do tempo do que as músicas que marcaram nossa jornada. Ao ouvi-las, mergulhamos fundo em lembranças que nos fizeram cicatrizes, sulcos bons ou ruins, num caminho de flores ou espinhos. Os sucessos de uma época são as trilhas sonoras de quem a vive, o vinho de um jantar que permanece em nossos paladares pelos restos de nossas vidas. Basta ouvir um som do passado para que as portas do passado se abram, descortinando lembranças de um tempo que nos remete a tristezas ou alegrias, muitas vezes com ares de infinito, mas que não são.


Cada um com seu cada qual

Cada tempo tem sua música. Nenhuma geração é melhor que a outra, a não ser a nossa. Cada um arrasta a brasa para sua sardinha e aquilo que eu gosto sempre será melhor do que aquilo que eu detesto. Assim é a música, os costumes, a vida. Cada um com seu cada qual em seu respectivo quadrado.


O som de um tempo

Se tem algo que tenho orgulho é ter feito a trilha sonora de muita gente através de meus programas no rádio. Era um tempo em que a maioria das pessoas só tinha acesso à música por meio dos meios de comunicação, rádio e televisão. Assim, a gente acabava ditando o que as pessoas ouviam, apesar de atender aos pedidos pessoais, muito embora os gostos fossem forjados nos sucessos que a gente mostrava em primeira mão.



Começou mais cedo

Bem antes do rádio, os alto-falantes que haviam nos postes é que faziam os sucessos do dia a dia. A partir de um estúdio, a gente falava ao público por eles, tocando o que se ouvia nas grandes cidades, ou o que a gente pensava que tocavam. Foi assim que eu trouxe as músicas Mississipi (Pussy Cats) e Love Hurts (Nazareth) numa fita cassete, em 1976, para rodar no som que inundava a Avenida Tupãssi pelos postes. Sem querer, aquilo era ditar o sucesso que impregnava os jovens e quem mais gostava do estilo. A exemplo de muitas outras músicas, essas continuaram depois no rádio e até hoje embalam saudades e fazem novas lembranças.



Última faixa do disco

No fim das contas, o tempo não passa por nós sem deixar seus rastros. Ficam fotografias, lugares, cheiros, pessoas e, sobretudo, músicas. Talvez seja por isso que, de vez em quando, basta uma velha canção tocar para o túnel do tempo acender suas luzes e nos devolver, por alguns minutos, àquele mundo que ficou para trás. A gente volta mais moço, encontra amigos que já se foram, amores que não voltam e até aquele sujeito que éramos antes de aprender que a vida não vinha com manual de instruções. Depois, a música termina, o presente bate à porta e a gente volta. Mas volta diferente, carregando no bolso aquilo que o tempo não conseguiu levar: a lembrança. E enquanto houver uma música capaz de fazer isso, o passado não estará morto — estará apenas esperando alguém colocar a agulha no disco de vinil ou apertar o play.

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