domingo, 30 agosto, 2026

Pedagoga Marli Moreira – Um olhar na escola e outro na vida

Há trajetórias profissionais que ultrapassam os limites de uma simples carreira e se transformam em verdadeiras histórias de vida. A trajetória da professora Marli Moreira é uma delas. Pedagoga e pós-graduada em Psicopedagogia Educacional e Clínica, residente em Assis Chateaubriand, no Paraná, ela construiu sua caminhada profissional com determinação, coragem, estudo e, sobretudo, com a convicção de que nunca é tarde para recomeçar.

                Mãe de duas filhas e avó de cinco netos, Marli traz consigo uma história marcada pelo trabalho desde muito cedo. Ainda criança e durante a adolescência, ajudava a família em uma empresa de calçados, sem remuneração, aprendendo desde então o valor da responsabilidade, do compromisso e da dedicação. Mais tarde, exerceu diferentes atividades profissionais, sempre com empenho e competência, até chegar ao trabalho bancário, pelo qual desenvolveu grande paixão e no qual permaneceu por quinze anos, após aprovação em concurso público.

                Em 1998, decidiu iniciar uma nova etapa. Aos olhos de muitos, talvez pudesse parecer tarde para começar uma faculdade. Para Marli, entretanto, era justamente o momento de acreditar novamente em seu próprio potencial. Ingressou no curso de Pedagogia da UNIMEO, em Assis Chateaubriand, onde teve a oportunidade de conhecer o professor José Pardinho Souza, a quem considera um mestre inesquecível e uma referência importante em sua formação.

                A partir dessa escolha, sua relação com a Educação ganhou novos caminhos. Depois de enfrentar concursos públicos e conquistar aprovações, em 2004 ingressou na área da Educação e assumiu o cargo em 2005. Sua trajetória passou por diferentes instituições, entre elas a Escola Papa João Paulo II, o Colégio Estadual de Bragantina, a Escola São Francisco de Assis e a Escola Estadual Guimarães Rosa.

                Em 2011, iniciou uma importante etapa no CEEBJA — Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos —, onde permaneceu por 14 anos. Foi também nesse período que enfrentou novos desafios profissionais e concursos, demonstrando uma característica que sempre esteve presente em sua trajetória: a disposição para continuar aprendendo e buscando novos caminhos.

                Em 2025, com o encerramento das atividades do CEEBJA, assumiu o cargo de pedagoga, com 40 horas semanais, no Colégio Chateaubriandense. Foi acolhida pela professora e diretora Edenise José Milani Ferreira e, posteriormente, participou do concurso de remoção para a instituição. Atualmente, atua como pedagoga nas modalidades de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e Formação Docente.

                São sete concursos públicos ao longo de sua trajetória — uma conquista da qual Marli demonstra grande orgulho. São também mais de duas décadas dedicadas à Educação, construindo uma história profissional baseada no compromisso com a escola e com as pessoas que fazem parte dela. Mas o que torna essa trajetória especialmente significativa não é apenas o número de anos trabalhados, os concursos conquistados ou os cargos ocupados. É a maneira como Marli compreende a Educação.

                Um olho na escola e outro na vida

Essa expressão resume uma concepção de educação que vai muito além da transmissão de conteúdos. Ter um olho na escola significa valorizar o conhecimento, a formação científica, o pensamento crítico, a teoria, a leitura e todas as ferramentas capazes de ampliar os horizontes dos estudantes.

                Porém, manter o outro olho na vida significa compreender que o conhecimento precisa dialogar com o mundo real. É necessário preparar o estudante não apenas para as avaliações ou para o mercado de trabalho, mas também para enfrentar desafios, solucionar problemas, desenvolver inteligência emocional, exercer a empatia e construir relações humanas baseadas no respeito e na solidariedade.

                É justamente nesse equilíbrio entre teoria e prática, escola e vida, conhecimento e humanidade que se encontra uma das maiores contribuições da professora Marli Moreira.

                Sua prática cotidiana demonstra que educar é também ouvir, acolher, orientar e acreditar nas possibilidades de cada pessoa. Principalmente na Educação de Jovens e Adultos, essa compreensão ganha ainda mais importância, pois cada estudante chega à escola trazendo uma história própria, marcada por sonhos, dificuldades, interrupções e novas oportunidades.

                Nesse contexto, o papel do pedagogo ultrapassa a organização escolar. É também o de reconhecer potencialidades, incentivar recomeços e mostrar que a educação pode abrir portas que, em algum momento da vida, pareciam fechadas.

                A própria história de Marli é uma prova disso. Ao iniciar a faculdade de Pedagogia em uma fase mais madura de sua vida, ela demonstrou, com atitudes, aquilo que muitas vezes a escola procura ensinar: não existem limites definitivos para quem continua disposto a aprender.

                Sua trajetória também revela que a experiência adquirida em diferentes áreas profissionais não foi perdida quando ingressou na Educação. Pelo contrário, cada trabalho, cada desafio e cada conquista contribuíram para formar a profissional que é hoje. A vida ensinou aquilo que os livros complementaram, e os livros deram novos significados àquilo que a vida havia ensinado.

                Por isso, sua caminhada pode servir de inspiração para outros profissionais e, principalmente, para os estudantes. A história de Marli mostra que estudar, trabalhar, recomeçar e acreditar em si mesmo são atitudes capazes de transformar destinos.

                Depois de tantos anos de dedicação, chegará o momento de se afastar da Educação. Mas o verdadeiro legado de um educador não termina quando deixa a sala de aula ou encerra sua carreira. Ele permanece nas pessoas que foram orientadas, nos estudantes que encontraram incentivo, nos colegas que compartilharam experiências e nas histórias que ajudou a transformar.

                Marli afirma: “A gentileza é o reflexo daquilo que aprendi.” Talvez essa frase seja uma das melhores sínteses de sua trajetória. Afinal, educar também é deixar marcas — e as marcas mais profundas não são necessariamente aquelas produzidas pelo conhecimento técnico, mas aquelas construídas por meio do respeito, da empatia, da dedicação e da humanidade.

                Olhar para a escola é acreditar no poder transformador do conhecimento. Olhar para a vida é compreender para que esse conhecimento deve servir.

                E talvez seja justamente essa a grande lição deixada pela professora Marli Moreira: educar é manter um olho na escola, mas nunca deixar de enxergar a vida.

* Filósofo e teólogo – professor de filosofia, antropologia e história.

Professor da Rede Estadual de Educação

pardinhorama@gmail.com

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