sábado, 22 agosto, 2026
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Por Clóvis de almeida

Esperando o avião de Chateaubriand

A cada aniversário da cidade me bate a saudade dos velhos tempos. Já se vão 60 anos daquele dia de sol escaldante, quando o velho jornalista Francisco de Assis Chateaubriand veio pela primeira e única vez à nossa cidade. Naquele dia, minha mãe me vestiu com uma fantasia de marinheiro e um par de congas novinho que comprou para o desfile de emancipação do município: 20 de agosto de 1966. Todos os alunos, de todas as escolas, estavam na avenida, ao som das fanfarras, esperando chegar o avião que traria o homem de quem herdamos o nome da cidade.

Os pelotões se formaram na Praça Tiradentes, apelidada de Pioneiros. Naquela época, fazia muito frio em agosto, mas o sol esqueceu esse detalhe e naquele dia arregaçou as mangas e veio com tudo pra queimar o lombo dos pobres coitados que desfilavam, crianças, adolescentes, aborrecentes, adultos e alguns que ainda não sabiam o que eram. Quanto mais o sol ardia em nossas cabeças, mais o bendito avião atrasava. E vamos marchar. Um dois, feijão com arroz. E nada de feijão e muito menos de arroz. O bucho roncava e o homem não vinha.

E o desfile se enfiava pela avenida empoeirada afora. O conga já não era mais branco. O marrom da nossa amada terrinha tinha tomado lugar, talvez, para combinar com as meias.

Espera o ômi!

E o avião não chegava. Passa o desfile. Gente por todos os lados. Éramos quase 140 mil habitantes, fora os convidados vizinhos e de longe. Caminhões e Jeeps enfeitados, garotos vestidos de índios, bandeiras de todos os tamanhos, alunos de guarda-pó, e eu, no pelotão, de marinheiro, todo garboso. Traje de gala, todo branco com fitas azuis na gola que mais parecia uma asa. A costureira não era aquelas coisas. As pernas das calças terminavam nas canelas, deixando à mostra os furos nas meias velhas, quase brancas, não fosse o encardido da nossa próspera terra vermelha.

Bum ba ra rum, ba bum ba! A fanfarra já desafinada pelo calor misturava um bumbara bum com a bumbarabada.

Todo mundo esperando a chegada do Assis Chateaubriand e do governador Paulo Pimentel. E nada de avião. E que sede desgraçada! Não sei se era mais forte a sede ou a vontade de dar uma mijada. Por pouco não agachei pra desaguar ali mesmo na poeira da avenida. Uma vontade enorme de sair correndo para o Grupo Velho e tomar uma caneca d’água. Era a minha escola, quase em frente onde hoje é o Hotel Verdes Campos, na rua abaixo da avenida.

Até que enfim, o barulho do teco-teco esperado rugiu rasante pela Avenida Tupãssi. Chegava quem tanto esperávamos. Poucos minutos depois, mesmo com fome, acenando bandeirinhas, assistimos à chegada do chamado Velho Capitão, o ex-embaixador Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo. Do campo de avião, no Jardim progresso, ele veio em uma Kombi, que abriu as portas para descerem sua cadeira de rodas no centro da cidade, em frente à população que o aguardava.

Até que enfim chegou!

Uma enfermeira acompanhava um sujeito fortão que empurrava a cadeira. Era ele quem interpretava a maioria das falas que ele balbuciava, em razão da doença que o impedia de se comunicar direito. Ele já estava enfermo e quase não falava.

Sua passagem em revista aos anfitriões de todas as idades foi em um pequeno trecho da Avenida, sobre a cadeira de rodas. Ao seu lado, aquele que leria seu discurso, após o almoço, num barracão da Igreja São Francisco, o ator Lima Duarte, seu funcionário e amigo na Tv Tupi. Também estava o governador do Estado, Paulo Pimentel.

Foi uma festa. Mataram tanto boi naquele dia, era tanta carne que no final as pessoas levaram gordas e frescas sobras para comer em casa.

Também estava presente, o prefeito de Toledo, Avelino Campagnolo, que assinaria a emancipação junto com o governador. Assis até aquele dia pertenceu ao município de Toledo, como distrito chamado Tupãssi.

Começava naquele 20 de agosto de 66 um novo tempo, já éramos oficialmente um novo município, que hoje, 2026, completa 60 anos. Parabéns para todos os pioneiros!

Parabéns pra nós!

Muitos vieram, colheram o que puderam e se foram para novas aventuras. Os que ficaram continuaram a plantar sementes para um novo amanhã.

Tivemos dias ruins, outros maravilhosos. Muita gente se foi, muitos novos continuam chegando. O melhor brilho do sol do passado nunca irá se apagar enquanto tivermos aqueles que apostam no melhor para a nossa cidade. Cada um busca a luz para seu futuro, mas, se essa busca se fizer com todos de mãos dadas, num só pensamento de crescer o coletivo, iremos cada vez mais longe. Se assim fizermos, todos deixaremos um legado de amor, fé e esperança em dias cada vez melhores para as futuras gerações. O hoje já foi ontem, que daqui a pouco será amanhã. É impossível viver essas mudanças   eternamente, mas é plenamente viver para sempre. Basta semear a melhor semente, aquela que transforma o impossível em conquistas, sem importar o tamanho delas, desde que carregue consigo a união entre todos aqueles que fazem funcionar o motor desta cidade que amamos.

Parabéns àqueles que aqui chegaram no início dos anos 60! Eles foram ou são testemunhos da luta de um povo que construiu os primeiros passos da história da nossa gente.

Parabéns a quem chegou depois e se juntou aos que aqui já estavam para continuar a construção desse pedaço de chão!

Parabéns a todos, porque juntos somos Assis Chateaubriand!

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