No caminho luminoso do tempo pascal, em direção à efusão do Espírito Santo em Pentecostes, a Palavra de Deus nos conduz ao coração do mistério cristão. No Evangelho de João (Jo 14, 15-21), Jesus fala aos discípulos como quem se despede, mas também como quem permanece. Suas palavras não são apenas recordação, mas promessa viva.
“Se me amais, guardareis os meus mandamentos”. À primeira vista, essa afirmação pode parecer uma exigência, como se o amor de Deus dependesse do cumprimento de normas. No entanto, o Evangelho revela um caminho mais profundo. Não se trata de obedecer para ser amado, mas de amar porque fomos amados primeiro. A observância nasce como fruto de uma relação viva com Cristo.
Aqui está uma mudança decisiva para a vida de fé. Quando reduzimos o cristianismo a obrigações, a experiência religiosa se torna pesada e marcada pelo medo de não corresponder. Jesus, porém, nos conduz ao ponto de partida do amor. Um amor acolhido e vivido, que transforma o coração e torna possível viver o Evangelho.
Nesse horizonte, destaca-se a promessa do Espírito Santo. Jesus anuncia o Paráclito, o defensor, presença viva de Deus no íntimo do ser humano. Ele ensina, recorda e sustenta. Onde está o Espírito, ali há vida nova, coragem para recomeçar e força para testemunhar.
Essa presença se revela especialmente nas fragilidades. Os discípulos experimentam a sensação de ausência, mas não estão sozinhos. O Espírito permite reconhecer que Cristo continua presente, caminhando com o seu povo. A fé deixa de ser apenas memória e se torna experiência de comunhão.
Outro dom oferecido por Jesus é a paz. “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”. Não é ausência de conflitos, mas serenidade que nasce da confiança em Deus. É a paz de quem sabe que sua vida está nas mãos de Deus.
Essa Palavra interpela também a vida da Igreja. Uma comunidade centrada apenas em normas perde o vigor do Evangelho. Quando o amor de Cristo ocupa o centro, nasce uma Igreja viva, capaz de acolher, consolar e testemunhar esperança.
No cotidiano, essa lógica transforma tudo. Cumprir por obrigação pesa, cumprir por amor liberta. O amor orienta as escolhas e configura nossa vida à vida de Cristo, em um processo interior sustentado pela graça. Diante disso, o Evangelho nos questiona: queremos viver como discípulos de Jesus?
O caminho começa na abertura do coração. Deixar-se amar por Deus é o primeiro passo. Acolher esse amor e confiar nele permite que a vida seja transformada.
Então surge algo novo. Os mandamentos deixam de ser peso e se tornam expressão de vida renovada. A fé deixa de ser prática exterior e se torna encontro. E, nesse encontro, realiza-se a promessa: Deus vem habitar no coração humano.
Estamos prestes a celebrar a Ascensão do Senhor e Pentecostes (nos próximos domingos). Vamos transformar estes dias em uma preparação humilde e sincera, lendo, cada dia, uma pequena passagem nos capítulos 14-17 do Evangelho de São João. O capítulo 17, em particular, uma longa oração que Jesus faz ao Pai em nome dos discípulos pode nos dar boas razões para reafirmar nossa confiança: a oração de Jesus é o fundamento da nossa esperança.
Que este VI Domingo da Páscoa reacenda em nós o desejo de uma fé viva, sustentada pelo amor e animada pelo Espírito, capaz de testemunhar que Cristo está presente e continua renovando a esperança.
Dom João Carlos Seneme, css
Bispo Diocesano de Toledo

