A vida parece caber no celular e a presença nas redes sociais tem sido quase um requisito social. A falta de presença em postagens traz a invisibilidade, como se você não estivesse existindo, produzindo, vivendo. Fotografias, conquistas profissionais, viagens, celebrações familiares e até pequenos momentos cotidianos são compartilhados constantemente.
Um comportamento que tem crescido é exatamente o de pessoas que acompanham as redes sociais, mas preferem não postar sobre a própria vida. O que para alguns pode ser estranho, para outros, pode ser uma forma saudável de autocuidado emocional que envolve a capacidade de estabelecer limites no uso da tecnologia e das redes sociais, protegendo a saúde mental. Nem sempre compartilhar tudo o que acontece na vida é sinal de autenticidade ou liberdade. Em muitos casos, preservar aspectos da própria história é uma forma de manter a intimidade emocional e evitar pressões sociais desnecessárias.
Quem escolhe observar mais e postar menos, muitas vezes faz isso como forma de proteger-se de julgamentos, críticas ou interpretações equivocadas. A internet, embora amplie possibilidades de comunicação, também pode intensificar a sensação de estar sendo socialmente vigiado.
A exposição excessiva também traz outros riscos importantes. Compartilhar constantemente a vida pessoal pode gerar uma sensação de obrigação de mostrar felicidade, sucesso e realização o tempo todo. As fragilidades e mazelas da vida cotidiana são relegadas a segundo plano, causando frustração, uma vez que aumenta a sensação de que estar feliz sempre é o correto. Se as coisas não estão saindo como o esperado, então, não é possível se sentir feliz, assim, vai se instalando um padrão idealizado de felicidade, processo que pode gerar sentimentos de inadequação, frustração e baixa autoestima.
O hábito de observar excessivamente as redes sociais também pode provocar desgaste emocional. O fluxo constante de informações, imagens e opiniões mantém a mente em estado de alerta permanente, dificultando momentos de descanso psicológico. O cérebro humano não foi projetado para lidar com tantas comparações sociais simultâneas.
Nesse sentido, exercitar o autocuidado digital é essencial para a preservação da saúde mental. Não é necessário abandonar as redes sociais, mas aprender a utilizá-las de forma mais consciente, encontrando o equilíbrio, usando as redes para exercício de conexão com as pessoas, evitando as comparações e pressões emocionais.
Lembrar sempre, que a vida acontece fora das telas.
Silvana Pedro é psicóloga e Mestre em Promoção da Saúde.
Atende adultos e crianças na Clínica Bambini.



