sexta-feira, 6 março, 2026
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Por Clóvis de Almeida

Ao vosso reino, nada

Ouvi um radialista dizer que precisamos ser mais bairristas com relação às nossas cidades do interior. Confesso: essa palavra me arrepia. Esse negócio de bairrismo é coisa tão ultrapassada quanto motor de manivela. Pode até ter funcionado num tempo de carroça e estrada de chão, mas não no século da internet, da logística integrada e dos mercados interdependentes.

Já imaginou se existisse bairrismo na Europa? O euro não teria unificado economias distintas, a circulação de pessoas seria travada por muros invisíveis e a cooperação comercial jamais teria atingido o nível que alcançou. A própria lógica de blocos econômicos como a União Europeia e o Mercosul nasce da compreensão de que juntos se negocia melhor, se cresce mais e se enfrenta crises com mais força.

Bairrismo não é proteção — é isolamento. E isolamento, em economia, costuma ter um preço alto.

Fechar portas, jamais!

Não podemos falar em fechamento de porteiras quando queremos vender além das fronteiras. Temos soja, trigo, aço, móveis, plástico, tecnologia, serviços — temos capacidade produtiva e criatividade. Mas produção sem mercado é estoque parado. É galpão cheio e caixa vazio.

Não adianta investir em inovação, qualificar mão de obra, modernizar maquinário, se ao mesmo tempo defendemos um discurso que limita o alcance dos nossos produtos. A economia não funciona em circuito fechado. Ela depende de fluxo: entra, sai, gira, retorna.

Sentimos isso na prática quando surgem barreiras comerciais, como as “taxinhas” impostas por governos estrangeiros. Uma decisão política lá fora impacta diretamente o produtor aqui dentro. Isso mostra, de forma clara, que não somos autossuficientes nem blindados. Se lá fora fecham portas, sofremos. Então por que defender o fechamento das nossas?

Ninguém é uma ilha

Sozinhos, consumindo apenas o que produzimos, não absorvemos nem metade da metade da nossa própria capacidade. A escala importa. O mercado local é importante, sim — mas é limitado.

Num mundo globalizado, falar em bairrismo é como querer desligar o Wi-Fi e continuar esperando conexão. É incoerente.

É confortável dizer, dentro das nossas quatro paredes, que devemos valorizar apenas o que é nosso. Mas e na hora de vender? E quando dependemos do cliente que vem da cidade vizinha? Quando torcemos para que consumidores de fora escolham nosso comércio, nossos serviços, nossa indústria?

Bairrismo só vale quando é para comprar? E quando é para vender, queremos abertura? Não podemos ter dois discursos: um de portas fechadas para dentro e outro de braços abertos para fora. Ou acreditamos na integração, ou assumimos o isolamento.

Todos são bem-vindos

Todo mundo gosta quando gente de fora entra na cidade para comprar. São recursos novos circulando, fortalecendo o comércio, gerando emprego, ampliando arrecadação. É assim que comunidades crescem: atraindo, não repelindo.

Defender bairrismo em voz alta é perigoso. Os vizinhos escutam. E podem resolver fazer o mesmo. Se cada município decidir olhar apenas para o próprio umbigo, o resultado não será prosperidade — será retração.

Quando todos fecham, todos perdem.

Quando todos competem de forma saudável e colaboram ao mesmo tempo, todos crescem.

Transformar cada cidade numa ilha econômica é condená-la à escassez. Mercado não se expande com muros; expande-se com pontes.

Todos juntos reunidos

Esse negócio de “venha a nós e ao vosso reino nada” não funciona. Nunca funcionou. União de uma comunidade para resolver problemas, atrair investimentos, melhorar infraestrutura e qualidade de vida é absolutamente necessária. Isso é maturidade coletiva.

Mas isso não é bairrismo. É cooperação interna com visão externa.

Bairrismo é egoísmo disfarçado de patriotismo local. É confundir identidade com exclusão. Podemos — e devemos — valorizar o que é nosso sem desvalorizar o que vem de fora. Podemos fortalecer nossa base sem cortar nossas conexões.

Somos um povo único num planeta cada vez mais interligado. Economia, cultura, tecnologia e conhecimento circulam em rede. Quem se desconecta empobrece — material e intelectualmente.

Se não trocarmos experiências, comércio, serviços, inovação e cultura, ficaremos menores. E o mundo não está ficando menor em oportunidades; está ficando mais competitivo.

Precisamos de pontes, não de porteiras trancadas.

Precisamos de integração, não de isolamento.

Precisamos de visão ampla, não de horizonte curto.

Porque prosperidade não nasce do fechamento — nasce da conexão.

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