A solidão, queixa comum à faixa etária de idosos, tem crescido entre a população jovem. Não se trata de não terem amigos ou companhia, e sim, da falta de conexões profundas. Hiperconectados e ao mesmo tempo tão sozinhos, impacto que inclui o bem-estar físico e emocional. Ansiedade elevada, sintomas depressivos, crises de pânico, automutilação e ideação suicida têm surgido cada vez mais cedo.
As razões são inúmeras, a conectividade excessiva é uma vilã considerável, privilegiando a comparação, exposição e validação externa. Nas redes sociais, o número de curtidas torna-se termômetro de valor pessoal. Corpos, rotinas e conquistas editadas criam uma vitrine permanente de felicidade e sucesso que não corresponde à vida real. O jovem, ainda em construção da identidade, passa a medir sua autoestima por parâmetros irreais.
A cultura em que vivemos presa pelo alto desempenho, em que o erro é visto como fracasso e o sucesso precisa ser constante e visível. Soma-se a isso a pressão acadêmica, a insegurança em relação ao futuro profissional, os conflitos identitários próprios da adolescência e, muitas vezes, a dificuldade dos próprios pais em lidar com suas emoções.
Como alternativa para solucionar a problemática, cada vez mais, os jovens têm recorrido a chatbots de inteligência artificial como apoio emocional. Para muitos jovens, esses recursos representam um espaço de escuta sem julgamento, disponível quando houver necessidade, independentemente da hora. A tela funciona como confidente e, ao mesmo tempo, um recurso de confiança.
Esse fenômeno deve ser observado pelos pais. A busca pela inteligência artificial tem suas raízes na falta de diálogo ou sua escassez, ou seja, os jovens estão substituindo o diálogo com pessoas da sua confiança e proteção por “conversas” com recursos de inteligência artificial. O jovem tem buscado recurso onde é possível encontrá-lo.
Pais não precisam ter todas as respostas, mas precisam estar disponíveis. Perguntar e escutar sem interromper. Validar sentimentos antes de oferecer soluções. Demonstrar interesse real pela vida emocional do filho, e não apenas pelo seu desempenho.
Priorize conversas à mesa, momentos sem celular, presença emocional que enfatizam a atenção, a empatia e a compreensão profunda na comunicação. O principal fator de proteção em saúde mental na juventude continua sendo o vínculo afetivo seguro.
Silvana Pedro é psicóloga e mestre em Promoção da Saúde.
Atende adultos e crianças na Clínica Bambini.



