Nos tempos dos lobisomens
O jovem de hoje não tem a mínima ideia de como amanheciam as estradas do interior nas manhãs dos sábados de Aleluia. Era uma safadeza ingênua que mantinha a tradição de encher os carreadores e ramais com paus, galhadas e pedras, impedindo a passagem dos transeuntes. Por ser sábado, o povo ia às compras bem cedinho pra cidade, pois dia de Páscoa pedia um almoço melhor que os outros domingos e, quanto mais cedo se ia, mais cedo se voltava para os outros afazeres, como matar um porco e separar as galinhas que seriam abatidas para o banquete. Era quase um Natal de comidas e bebidas. O problema era chegar cedo na cidade quando se morava no sítio, pois as estradas cheias de paus impediam a passagem da carroça. Era preciso arrastar os estorvos em vários trechos.
Vizinho ladrão
Antes de sair de casa, não era novidade notar a falta de alguns frangos no quintal. Na madrugada também tinha havido a visita dos safados para uma outra tradição, a de roubar galinhas no Sábado de Aleluia. De quebra, levavam o leitão ou o cabrito que engordava para o fim de ano.
Quando a noite chegava, era a vez de malhar o judas, pauladas, chutes e fogo num boneco que representava o traidor de Jesus. Naquela hora se juntavam os safados e as vítimas, muitas vezes vizinhos próximos, que também mantinham a tradição de se reunir no almoço do dia seguinte, quando o dono da casa revelava que o franguinho de panela tinha sido levado da casa da visita. Tudo acabava em gargalhadas, quando o visitante se gabava de ter colocado um enorme toco de árvore na estrada do amigo vizinho.
Que medo!
Um dos assuntos preferidos na mesa da Páscoa, em meio à macarronada vermelha, risotos, guaraná quente e chocolate caseiro, era a mula sem cabeça e o tal do lobisomem, que diziam aparecer na Quaresma. Muitas vezes perdi o sono e pedia pra dormir na cama, entre meus pais, depois de ouvir essas histórias. Toda Quaresma era a mesma coisa, não podia ver um cavalo na rua que, na minha imaginação, a cabeça dele sumia. Hora em que corria pra debaixo da cama, gritando minha mãe, com medo da mula sem cabeça.
O lobisomem
O lobisomem já era uma história mais atraente, apesar de meter medo. Era corrente dizer que, nas noites de sextas-feiras, o infeliz, que seria um homem transformado em cachorro nas noites de sextas para sábados, invadia os galinheiros em busca de cocô de galinha, seu prato preferido, além do sal de cozinha. Na boca da noite da Sexta-feira Santa, minha mãe e toda a vizinhança colocavam pratos de sal para o lobisomem. Diziam que ele se satisfazia e ia embora. O prato de casa nunca amanheceu vazio, não que eu me lembre. Já meu pai, não tinha muita paciência em alimentar um bicho estranho pelas vias normais, por isso mantinha um facão Guarani de 20 polegadas, bem afiado. Era pra cortar o rabo do bicho, caso ele aparecesse. Ele jurava que o lobisomem era um vizinho. Eu acreditei nisso por um bom tempo, até descobrir que o homem era uma boa alma, se é que os lobisomens também não são.
Tal pai, tal filho
Por anos, nas manhãs da véspera de Páscoa, eu olhava na boca dos homens das redondezas onde a gente morava pra ver se não havia resquícios de sal ou bosta de galinha. Pior, algumas vezes desconfiei até do meu pai, pois a dona Quintina, benzedeira da vizinhança, dizia que meu pai era lobisomem. Logo no início eu não sabia se tinha medo ou orgulho do meu pai. Abandonei a ideia quando minha mãe explicou que era mentira, pois eu já tinha começado a dizer que quando crescesse queria ser lobisomem também. Quem sabe ainda seja. Vai saber…



