A era das mídias sociais trouxe como consequência a influência negativa sobre os padrões de beleza, intensificada pelos filtros e correções das imagens postadas. Não raro, nos causam choque as imagens de famosos sem maquiagem ou filtros. O resultado é a idealização do corpo perfeito, buscado cada vez mais cedo. O corpo idealizadamente perfeito e ao mesmo tempo inalcançável contribui para o avanço de quadros de depressão, transtornos alimentares e distorções da imagem corporal.
A grande questão é a demanda de crianças pequenas expressando a preocupação, às vezes excessivamente, com a aparência.
As crianças são mais suscetíveis à absorção das influências que recebem, uma vez que são imaturas e não adquiriram a capacidade crítica e de contestação dos modelos apresentados. Com isso, tendem a reproduzir o que observam. Querem ter a cinturinha dos personagens da Disney ou da Barbie, os músculos dos super-heróis e a aparência dos famosos que estampam as capas de revistas.
A ampla divulgação do uso das canetas emagrecedoras por adultos, muitas vezes tratadas nas redes sociais como soluções simples, rápidas e desejáveis, é um elemento recente que merece reflexão. Quando o emagrecimento medicamentoso é exposto como tendência ou conquista, reforça-se a ideia de que estar magro é uma prioridade e não deve ser adiada. A criança que observa e absorve essas mensagens pode concluir que o corpo não corresponde ao esperado e precisa ser ajustado a qualquer custo.
Apesar da força das redes e da cultura que preza pelo corpo perfeito, os pais continuam sendo as principais referências na construção da imagem corporal dos filhos. E essa influência pode ser positiva ou negativa.
Quando os pais são muito críticos quanto à aparência de outras pessoas, com comentários do tipo: “como fulano engordou”, “esse pudim deve ter muitas calorias” ou “não poderei comer essa carne porque contém muita gordura”, impactam diretamente as crianças, causando distorção na forma com que se relacionam com o alimento e com o corpo.
Tenho observado o aumento de casos que chegam ao consultório para tratamento de anorexia e quase sempre a história se repete. Trata-se de adolescentes que na infância apresentavam sobrepeso, passaram por muita cobrança familiar ou externa para perder os quilos a mais e ouviram por repetidas vezes no ambiente familiar ou fora dele que estavam gordinhas.
A comida está presente em várias interações sociais, na escola, nos encontros familiares e nos círculos sociais que frequentamos. As refeições devem estar associadas ao prazer e cuidado. Mesmo quando há necessidade de mudanças alimentares por questões médicas, é possível conduzi-las com serenidade e responsabilidade, sem transformar o alimento em vilão ou o corpo em elemento de conflito.
Os pais também devem atentar-se a outros comportamentos e reconhecer aspectos que vão além dos físicos destacando atributos como inteligência, persistência, esperteza e bom humor. É preciso ir além do costumeiro uso dos termos “bonito” e “feio”. Cabe aos adultos mostrar que a autoestima não depende do tamanho do corpo, protegendo a infância da obsessão dos padrões de beleza.
Silvana Pedro Pinto é psicóloga e Mestre em Promoção da Saúde. Atende adultos e crianças na Clínica Bambini



