sexta-feira, 6 março, 2026
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Por Clóvis de Almeida

O rádio num dia de chuva

Em cima da cristaleira da sala ficava o rádio Zilomag que meu pai comprou na antiga Comercial Cimadas, em três pagamentos. Custou os olhos da cara, pois um aparelho receptor naquela época era coisa de rico, embora não fôssemos. Longe disso.

Do túnel do tempo

Eram os famosos e, dizem, dourados, anos 60. Do alto falante do rádio saía o som vindo das ondas curtas que alegravam a sala o dia todo. Roberto Carlos já cantava o iê iê iê, mas o sertanejo do Zé Bétio era mais divertido quando tocava “Meu Cafezal em Flor”, nas vozes de Cascatinha e Inhana.  A rádio Diário da Manhã de Florianópolis ‘pegava’ limpinho por onde eu e minha mãe ouvíamos as rádio-novelas das duas da tarde. Às noites eram animadas com a “Maré Mansa”, um programa humorístico da rádio Tupi, do Rio de Janeiro.

Com todo respeito

Era Um Garoto Que Como eu Amava os Beatles e os Rolling Stones era uma das músicas daqueles anos 60 que tocava durante o dia. Nas madrugadas, fins de tarde e nas noites, os grandes sucessos eram as modas de viola nas vozes de Zilo e Zalo, Tonico e Tinoco, Belmonte e Amaraí e tantos outros. Era um tempo em que as músicas eram compostas por várias notas musicais, ao contrário do que fazem hoje, onde duas notas são suficientes para acompanhar versos ingênuos. Agora eu sei o que meu pai queria dizer que gosto é igual fiofó: cada um tem o seu. Por isso eu respeito…

Santa inocência!

Televisão não havia nos anos 60 lá em casa, nem em meus sonhos de criança, mas eu já tentava imaginar como era o estúdio onde estavam o locutor e os cantores.  Na minha crença infantil chegava a rezar, por horas em pé numa cadeira, para alcançar a frente do rádio na alta cristaleira. A oração era para que Deus me permitisse ver imagens na tela de pano do Zilomag. Fazia tanto esforço de concentração que chegava a ficar com dor de cabeça. Tudo o que eu via era o pano trançadinho que tinha um cheiro de tinta fresca com poeira velha.

Valha-nos, Santa Bárbara!

No telhado, um fio de cobre nu esticado por uns 10 metros entre duas ripas de madeira era a antena do rádio. Dele, descia um outro fio, este com capa vermelha, que passava por uma chave de metal e louça branca, que a gente desligava quando o céu se riscava de raios. Naqueles momentos de tempestade, os espelhos eram cobertos com toalhas ou lençóis. — O espelho atrai raios, dizia minha mãe, me empurrando pra debaixo da pesada mesa de madeira grossa da cozinha. Tinha de ficar ali até o temporal passar, seguro de uma possível queda de telhas, pois não havia forro no teto. Ficar com tesoura, garfo ou qualquer objeto metálico nas mãos era proibido. — Isso também atrai raios, reforçava dona Olívia, que me ensinou a benzer o tempo com um galho do Domingo de Ramos e uns punhados de sal lançados ao vento que rugia forte, arrancando galhadas do pé de abacate e lambendo o telhado num barulho ensurdecedor. Santa Bárbara sempre me ouviu!

Juntando cacos

Era um alívio sair do esconderijo improvisado e dar de cara com milhares de folhas pelo quintal, arrancadas com o vendaval que também não perdoara um grande galho da goiabeira. Era sempre assim, a cada temporal, trabalho de dias para a limpeza, que eu tinha que ajudar a fazer. Parece que naquele tempo chovia e ventava mais que hoje.

Luz elétrica não havia ainda e a energia para o Zilomag vinha de quatro pilhas Raio-Vac, ou Everedy. Ao lado dele, uma vela para iluminar o ponteiro de sintonia no escuro das noites.

Tudo de novo

A tempestade ia embora e o rádio podia ser ligado novamente. A música enchia a sala enquanto a chuva fraca ainda insistia em produzir pingos cintilantes nas latas de flores espalhadas ao longo da parede, do lado de fora. O alto falante reproduzia os estalos atmosféricos captados pela antena, ainda que o temporal havia passado. Ruído suficiente para dona Olívia gritar com sotaque de comandante supremo lá de casa: Desliga isso aí, já!

Esperando um milagre

Lá ficava eu, então, rezando para a chuva ir embora de vez. Quando o tempo insistia em me provocar, se ainda fosse dia, a minha vingança era ir à rua fazer barreiras de lamas e pedras para estancar a enxurrada, alagando, por vezes, boa parte da pista sem asfalto, para em seguida estourar a ‘represa’ fazendo descer via abaixo a água que parecia vibrar com meu grito de alegria, como se ela levasse o temporal embora.

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