sexta-feira, 6 março, 2026
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Podridão normal

Dona Romilda Rosa Ferreira, bolsonarista militante, ajudou a fretar um ônibus em São Lourenço, para quem queria aderir ao acampamento montado na frente do QG do Exército. O ônibus não lotou em São Lourenço e ainda teve lugar para gente chegada de Itamonte e gente que embarcou em Caxambu. Semana passada ela foi condenada a 14 anos por associação criminosa armada, tentativa de golpe de estado e abolição violenta do estado de direito. Ela já carrega, há tempos, tornozeleira de semi-prisioneira política. O Brasil, por ironia, tem tantas Romildas quantos presos políticos tem a Venezuela. Só que logo estarão livres, numa anistia geral que abrange os 26 anos de chavismo.

Se nossa crise fosse apenas política, com radicalismos, extremismos, fanatismos, vinganças e medo, tudo se resolveria por uma pacificação, como a que a Venezuela vai tentar a partir de agora. Mas a crise é mais grave e destruidora. Não é apenas de ignorância, de falta de conhecimento. Sim, é preocupante que um terço do ensino médico seja inferior a medíocre. “Quem vai cuidar de nós?”- perguntam-se os médicos de meia-idade. Não; não é apenas o ensino medíocre em quase todas as áreas, em que pessoas que tem a língua portuguesa como principal ferramenta, não sabem o significado das palavras, não sabem construir uma frase na lógica da língua. A crise é pior. É moral – ou ética, para usar um sinônimo. São os princípios, que deveriam ser inculcados na medula das novas gerações na casa da família. Mas como, se até as famílias estão diluídas?

Estadão de domingo mostra o “Compadrio Brasileiro” num artigo de Fernando Schüller, em que o banqueiro esperto, Vorcaro, contrata o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, por 1 milhão por mês; contrata o ex-ministro do Supremo, depois Ministro da Justiça, Lewandovski, por 5 milhões – ambos por indicação do líder do governo, Senador Jacques Wagner. O artigo mostra que a família de Moraes tem o inédito contrato de valor inédito: 129 milhões; que o Ministro Toffoli, que é relator do caso, é ligado ao Master via resort-cassino onde recebe banqueiros, ou a advogado de banco que lhe dá carona em jatinho, e seus irmãos vendem para advogado da JBS, da multa anulada. Mas o mais grave é pagar ônibus para manifestante ir a Brasília, ou escrever com batom em estátua de granito. Isso dá 14 anos de prisão.

O Supremo, o Presidente do Senado e o Presidente da República se juntam para que não haja consequências, como as que houve para Déboras e Romildas. Sigilo sobre provas, inércia sobre pedidos de impeachment, blindagens em CPIs. O editorial principal do Estadão de sexta afirma no título que estão “Fazendo o País de Bobo”. O pior de tudo é a naturalização pelos brasileiros dessas gravíssimas ofensas à ética, aos princípios e à própria Constituição. Considerar que um juiz do Supremo pode julgar um caso em que ele próprio está metido, como interessado, vítima, ou ligado por parentesco, é aceitar a falência da civilização no Brasil. Quem aceita a podridão como natural, é porque já apodreceu também.

Por Alexandre Garcia

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