Era assim
Uma coisa que essas novas gerações jamais vão viver é a gentileza e um coração grande que havia em nós, os chamados “antigos”. Era um mundo em que se emprestava uma xícara de sal ou açúcar sem precisar devolver. Um vizinho varria as folhas secas da calçada do outro ou ajudava na colheita na roça da vizinhança. Tudo sem cobrar nenhum centavo. Era tudo na base da camaradagem, em nome da amizade que reunia todos para rezar o terço ou cantar os hinos da igreja, como se fizessem o dever de casa do culto dominical.
Nada é de graça
É claro que esses hábitos não acabaram de todo e ainda existem em algum lugar que eu não tenho visto, porém, todos hão de concordar que estou falando de raridade. Hoje, com poucas exceções, tudo é na base do dinheiro, no toma lá, dá cá. Quase ninguém mais faz nada de graça. É o mundo do cada um por si, onde a maioria acha que abaixar demais vai mostrar a bunda. Gentileza tem preço e a palavra ‘grátis’ é suspeita de muita coisa. Não é à toa que se tornou popular a frase de Robert Heinlein: não existe almoço de graça, ou seja, por trás de uma bondade sempre há um interesse.
Outro mundo
Mas não era assim até nos anos de 1980. Posso dizer que era ‘outro mundo’, se comparado aos dias de hoje. Vivíamos um tempo em que as pessoas não cobravam por tudo que faziam. Era comum um mecânico regular um carburador de carro e dizer “não é nada não”. Os açougues davam ossos de graça aos fregueses, fígado de galinha ou pés de frango eram brindes para quem comprava o frango inteiro; restos de construção eram dados gratuitamente. As lanchonetes ofereciam petiscos sem custos para quem tomava cerveja. Hoje não se dá nada pra ninguém, tudo tem um preço e algo que parece grátis já tem seu preço embutido e disfarçado.
Amigos ouvintes
Nos primeiros anos da Rádio Jornal tínhamos um time de futebol formado por funcionários da emissora e amigos. Todos os sábados ou domingos de manhã fazíamos jogos com equipes formadas por moradores dos distritos e patrimônios. O objetivo era apenas confraternização. A comunidade tinha prazer em receber a ‘turma’ da rádio e nós a satisfação de encontrar pessoalmente nossos ouvintes. Era bom demais!
Tudo de grátis
Cada encontro dos fins de semana era marcado por gentilezas dos povos das comunidades que nos recebiam. Além do carinho afetivo, como se fôssemos da família, eles nos ofereciam os almoços. Não era uma comidinha qualquer não; eram assados e pratos saborosos que as famílias se esmeravam em nos preparar. Tudo regado a bebidas. Sabe quanto pagávamos por isso? Nada, absolutamente nada!
O povo era ‘mais bom’
Alguém pode até dizer que os tempos eram outros, o custo de vida era menor. Ledo engano. Basta uma consulta ao Google e teremos a resposta: Não, o custo de vida nos anos 80 no Brasil não era menor; ele era extremamente instável e descontrolado devido à hiperinflação, com preços subindo diariamente e picos que ultrapassaram 2.500% ao ano. A “década perdida” foi marcada por perda de poder de compra e salários corroídos, tornando a estabilidade atual do Real muito superior.
Pra quê dinheiro?
Assim, só tenho uma resposta para tanta gentileza no passado: A vida era considerada mais simples, com vizinhança unida, brincadeiras na rua e foco na convivência, criando laços humanos mais próximos. Contato humano mais próximo, com menos distrações digitais e menor pressão por consumo, resultando em relações sociais mais diretas e autênticas. Essa época valorizava a convivência presencial e a simplicidade, com expectativas de vida mais modestas, o que promovia maior satisfação interpessoal. O dinheiro era só um detalhe.
Menos interesse
Para alguém que julga as bondades do passado uma “inocência, burrice ou falta de inteligência”, eu digo que os relacionamentos eram, na verdade, um investimento em Capital Social, algo que a economia e a psicologia moderna hoje tentam resgatar. Não era falta de inteligência, era uma estratégia de sobrevivência coletiva. As pessoas se ajudavam e não se falava tanto em ansiedade, depressão e burnout, como hoje. Nesses dias atuais, as pessoas pagam caro por serviços que antes eram resolvidos com amizade e confiança. Muito do que hoje buscam em consultórios eram resolvidos em comunidades, com encontros, do tipo que as memórias têm prazer em registrar, além de servirem como remédios para o corpo e para a alma.
Ninguém vive só
Oferecer um banquete não era ‘desperdiçar dinheiro’, era adquirir memórias e fortalecer laços que o dinheiro não compra. A solidão moderna custa muito mais caro (em terapia e remédios) do que o preço de um almoço para os amigos. A inteligência individualista de hoje é frágil. Se a tecnologia falha ou o dinheiro acaba, o indivíduo isolado fica desamparado. Quem cultivava relacionamentos “inocentes” tinha uma inteligência sistêmica. Achar que não precisa de ninguém e cobrar por tudo parece inteligente no curto prazo, mas é uma armadilha. A verdadeira inteligência é saber que somos interdependentes.
Hoje ou ontem?
As pessoas nos anos 70 e 80 não eram ‘bobas’, elas eram mais conectadas com a própria biologia. Ser generoso gera um bem-estar que o aplicativo de banco não consegue entregar. Quem é mais inteligente: quem vive em um mundo onde tudo tem um preço e ninguém confia em ninguém, ou quem vivia em um mundo onde o seu valor era medido pela sua disposição em ajudar e ser ajudado?
Só lembranças…
Ficaram as saudades dos jogos e confraternizações, com as comunidades do Zé Lulu, Fazenda São Judas, Roela, Engenheiro Azaury, Encantado, Bragantina, Tupãssi, São Cosme e Damião, Silveirópolis, Barreiros, Terra Nova, Carajá, Jesuítas, Iracema do Oeste, Brasilândia, Ercilândia e tantas outras que minha memória não alcança agora, embora o carinho seja o mesmo. Os resultados dos campos não tinham a menor importância. Quando o árbitro (que era da comunidade) apitava o fim do jogo, ninguém se lembrava mais dos gols ou da falta deles. O que interessava era uma cerveja “estupidamente gelada” e o delicioso porco assado que nos aguardava na mesa do almoço, onde o assunto era a programação da rádio, que fazia de nós radialistas verdadeiros artistas e ídolos de um povo “bão dimais”!



