A presença da tecnologia no cotidiano indiscutivelmente oferece seus benefícios e facilita nossas vidas. No entanto, no que se refere ao desenvolvimento infantil, sua presença constante e cada vez mais precoce traz mais prejuízos que benefícios, impactando a infância nas mais diversas áreas, especialmente quando substitui experiências essenciais como o contato com livros físicos, o brincar livre e a interação face a face.
Um dos sinais mais simbólicos desse fenômeno é o fato de muitas crianças não saberem folhear um livro. Pode parecer um detalhe simples, mas não é. Folhear páginas exige coordenação motora fina, percepção espacial, noção de sequência e ritmo. Ao manusear um livro, a criança desenvolve habilidades motoras importantes, aprende a lidar com o tempo da leitura, com a espera e com a construção gradual do sentido da história. Quando essa experiência é substituída por telas sensíveis ao toque, o gesto se resume a deslizar o dedo, empobrecendo a variedade de movimentos e estímulos motores.
O sedentarismo vem aliado ao uso prolongado dos dispositivos eletrônicos. As crianças ficam cada vez mais sentadas, explorando o corpo e o espaço minimamente. A atenção também fica comprometida, uma vez que é fragmentada com a alternância de jogos e vídeos. Retomando o exemplo do livro físico, este é um convite à concentração contínua e à imaginação, ao contrário dos dispositivos eletrônicos que estimulam respostas rápidas e mudança constante de estímulo.
Os prejuízos afetivos não são tão visíveis, mas igualmente preocupantes. O tempo excessivo diante das telas reduz oportunidades de interação com adultos e outras crianças, fundamentais para o desenvolvimento emocional. É nas histórias lidas em voz alta, nas conversas sobre personagens e nas perguntas que surgem durante a leitura que a criança aprende a nomear emoções, desenvolver empatia e compreender o ponto de vista do outro. A escassez do contato com livros físicos empobrece esse universo simbólico, limitando a construção de vínculos e a expressão emocional.
O livro físico oferece uma experiência sensorial, cognitiva e afetiva insubstituível. Ele tem peso, textura, cheiro, começo, meio e fim. Ensina limites, sequência e profundidade. Resgatar o espaço dos livros na infância é investir no desenvolvimento integral da criança, promovendo não apenas habilidades acadêmicas, mas também humanas. Em um mundo cada vez mais digital, garantir esse equilíbrio é um compromisso de todos, principalmente dos pais.
Silvana Pedro é psicóloga e Mestre em Promoção da Saúde.
Atende adultos e crianças na Clínica Bambini.



