Somos quintal da cidade grande
A lei natural das coisas impõe que o maior manda no menor, pois, quem dá as ordens são os grandes. Os pequenos só obedecem, na base do “sigam o líder”. É assim desde que nascemos, todos. Assim funciona também nas cidades, onde as metrópoles dão a direção de tudo, educação, cultura, modo de vestir, de falar e até de andar. O interior só vê, ouve e aceita tudo, numa imposição de goela abaixo, tendo que engolir sem poder vomitar, porque os “grandes centros” dão sempre a palavra inicial e final.
Lá como cá
Os “caipiras” seguem em bando o que os “grã-finos” ditam, na moda, na comida e até nas risadas. É assim, seguindo o chamado eixo Rio-São Paulo, que o Brasil vira, de um ano para o outro, mês a mês, dia a dia, dizendo amém a tudo o que mandam lá “de cima”, através da televisão, de catálogos e até via vendedores mascates, desde a colonização.
Cultura forçada
As tradições culturais também estão virando uma só mesmice, onde até folclores estrangeiros estão tomando lugar das comemorações tupiniquins. O Bumba Meu Boi, Saci Pererê e a Folia de Reis estão relegados a confins interioranos, empurrados que foram pelo ridículo e sem graça halloween americano, um Dia das Bruxas que não existia por aqui até há alguns anos. Ultimamente, não se fala mais “desconto” em lojas. Americanizaram para “off” e importaram um dia inteiro para isso, chamado pelos gringos de Black Friday. Dinheiro ou cartão agora é “Cash or Credit” e uma grande promoção se resume em “outlet”. Parece muito bonito, mas tem mais jeito de cabresto de gringo em complexo de vira-lata. Em resumo, os grandes centros importam o que acham ser bom e o resto do país vai atrás, como Maria vai com as outras.
Atrás do bonde
Outro exemplo desse seguimento a olhos fechados são as costumeiras frases, chavões, que pegam como pragas, como dizer que “o ano só começa depois do Carnaval”. Isso é outra grande bobagem que se repete em todos os cantos, como se no interior existisse Carnaval. O que há são apenas bailinhos, onde uma minguada sociedade fica pulando em círculos dentro de um clube, ou ao redor de uma piscina, se imaginando estar na passarela da Sapucaí no Rio de Janeiro.
Tal qual papagaio
Não há porque o ano começar somente depois do Carnaval, em lugar algum desta nação. Se o interior brasileiro segue as grandes cidades do Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro vão de arrasto seguindo o que os americanos fazem, tentando copiar até o barulho de ventos do Mister Sam. Essa é uma invenção secular que baianos, pernambucanos e cariocas vivem para preparar o Carnaval sem ter que trabalhar como nos outros meses. Saem mais cedo do trabalho para confeccionar as fantasias que vão usar durante os quatro dias de folia. Bom pra eles, só que o resto dos brasileiros, que não vivem nada disso, fica se repetindo que, como papagaio, que “o Brasil só funciona depois do Carnaval”.
Sem esperança
Infelizmente, esse tipo de cultura não deve mudar tão cedo. Vai perdurar enquanto todos continuarem a dizer amém para o que vem de cima (que nem de cima é), onde as nossas músicas cá do Sul são afogadas com axé, samba e funk. Nada contra música ou cultura de ninguém. Gosto de axé, samba, funk, baião, zabumba e ‘sonfona’, mas é que temos nossas tradições, ou deveríamos ter. A nossa dança perdeu espaço para o que as televisões dizem que são a moda e as nossas festas perderam espaço para comemorações de outros modos de vida, sufocados, por causa da massificação que nos impõem há anos as redes de televisão do Rio e São Paulo. Raramente se comenta sobre as coisas ou fatos do Paraná que não seja tragédia. As briguinhas do BBB e as histórias das novelas ocupam mais espaço que as vidas de muita gente.
Sem identidade
Somos um interior que está perdendo a identidade, deixando de viver o que somos para bailar num terreno que há muito deixou de ser próprio para ser quintal da dita cidade grande, a centenas de quilômetros daqui. E pra piorar, tem quem acha uma boa ideia sermos invadidos por outro país, como se gringos fossem anjos, quando apenas repetem a entrada de Agamenon em Tróia, comandando uma legião de invasores na barriga de um cavalo de pau, abatendo sem dó um povo que passou para a história como otários.
Enquanto isso…
No interior, embora pareça parado que nem água de poço, o Brasil não para nunca, pois as contas que vencem a cada mês são provas disso. Portanto, o ano já começou faz tempo e, como dizemos por aqui, “vamo trabaiá qui o sór já raiô faiz hora!”



