O Natal depende de você
Quando me lembro de como era o Natal na minha infância ainda consigo sentir uma leve sensação de como eram aqueles dias. Pode ser nostalgia de velho, mas havia sim algo diferente no ar. O “Feliz Natal” que as pessoas trocavam tinham um som que parecia sintonizar as cores de um tempo onde a sinceridade se misturava com ingenuidade. Aceitem ou não, era muito melhor do que a plasticidade do mundo moderno que compactou tudo, até nossos sentimentos.
Já foi melhor
As mensagens de Natal e Ano Novo dos anos 70 tinham um quê de esperança e pareciam realmente desejar paz e otimismo num linguagem poética. As rádios enchiam seus espaços com mensagens de Natal de seus patrocinadores com fundos músicas natalinas. Era um ding dong e sininhos que começavam em novembro. Trabalhava-se dobrado para produzir, todo mundo queria fazer uma mensagem. Em fevereiro, a gente se lascava para voltar às propagandas normais, pois a tecnologia era na base da “unha”. Hoje, a necessidade de ser tudo para ontem e uma obrigatoriedade de preservação da espécie faz com que as pessoas sejam mais reservadas, com medo de todos os perigos e barreiras que criamos nos relacionamentos. É preciso muito cuidado com as palavras. Um simples “Feliz Natal” digitado nas redes sociais pode ser interpretado como uma provocação irônica.
Como dizia vovó
Iniciei minha vida profissional aos 12 anos de idade trabalhando em uma gráfica. Bem cedo tive contato com centenas de modelos de mensagens de Natal que eram impressas em milhares de cartões que as pessoas encomendavam para entregar a amigos, parentes, clientes e fregueses. “Que a paz se faça presente em cada coração. Feliz Natal e um Ano Novo de muitas conquistas para nossa você e sua família!”. Tinha mensagem para todos os gostos, profissões e ramos de negócios. Quando fui para o rádio, em fins dos anos 70, eu já era especialista em criar mensagens personalizadas. Hoje, basta digitar o tipo que se quer no Google e o texto aparece na hora. Perdeu a graça, o mundo está muito igual. Não se vê mais nem um bom dia diferente.
Lá como cá
A gente falava muito do nascimento do aniversariante do Natal, o Jesus da manjedoura. Hoje, o que mais vejo é menção ao ano que virá, como se o Natal fosse apenas um ponto da largada de uma corrida que não se sabe como vai terminar (quando termina). Mas o passado também não era perfeito, porque a falsidade sempre teve lugar. “Que a simplicidade do presépio nos lembre do verdadeiro sentido da vida, espalhando amor, perdão e fraternidade”, desejavam alguns cartões, porém, o que interessava mesmo eram as vendas no balcão.
Tempo do êpa
Cada vez em que me sentava à máquina de escrever Olivetti ou numa Remington, parava alguns segundos olhando para o vazio e buscando palavras para parir uma mensagem que fosse ao endereçado dizer que realmente desejávamos, em nome do cliente, um “Feliz Natal e Venturoso Ano Novo”. Havia mesmo um desejo de fazer com que aquelas palavras da mensagem se tornassem concretas em realidade, deixando o leitor delas mais feliz. Era muito diferente do que se faz hoje, copiando e colando, sem sentir o que se está querendo dizer. Isso quando se quer mesmo dizer alguma coisa. Não que uma mensagem colada não possa expressar um sentimento verdadeiro. Mas é que dá para perceber e ninguém acredita.
Olha o golpe!
Por isso e outras coisas, ficou, pelo menos para mim, muito difícil aceitar felicitações de fim de ano, pois atrás de cada palavra pode estar um caminhão de interesses outros que não seja vender alguma coisa ou roubar meu CPF e uma senha. A falsidade sempre existiu, mas hoje ela anda em parceria com os golpistas.
Sem raio X
Não é possível ver o coração de quem fez cada mensagem. Por isso também não é possível julgar o que cada uma delas nos diz. Assim, podemos então receber a todas, acreditando no que cada palavra nos mostra querer dizer, sem necessidade de interpretar o que há por trás delas, pois, pode não haver outra coisa que não seja o que sua grafia explica. É difícil, mas não custa tentar.
Esperança é tudo
Assim, o melhor de tudo é continuar lembrando que ainda somos humanos e, apesar de cada vez mais parecidos com nossas próprias tecnologias, continuamos a querer que o amanhã seja melhor. Dizer Feliz Natal! Ou Feliz Ano Novo! ainda continua sendo as palavras chaves para mostrar que queremos o melhor ao próximo, ou mesmo que com elas estejam implícitas (ou explícitas) os anúncios daquilo que queremos lhe vender. Afinal de contas, a vida continua e o vendedor é alguém que gosta muito de você!



