sexta-feira, 6 março, 2026
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Por Clóvis

O voo do crucifixo

Em poucos segundos a imagem de Jesus crucificado na cruz decolou da parede atrás do altar e fez um voo rasante para decolar no corredor da igreja, partindo em centenas de pedaços o corpo do Cristo e a cruz esculpidos em madeira.

Não é filme

Não, não é mais uma daquelas sequências de filmes satânicos de terror ou histórias de milagres. Foi um atentado que partiu de um sujeito doente, vítima de problemas mentais agravados pelo álcool e outras drogas. Ele vivia perambulando pelos arredores da Igreja Nossa Senhora do Carmo, onde se reunia com uma turma de mendigos.

O alvo da crise

Numa daquelas crises que atacam pessoas acometidas pelos efeitos das drogas, o rapaz de uns 40 anos de idade, moreno claro, magro e sem camisa, adentrou a igreja e começou seu ataque, iniciando por erguer os bancos e jogá-los no chão com violência.

Eu vi na hora

Por acaso, no momento eu estava na janela do prédio da Rádio Jornal quando ouvi um tremendo barulho vindo da Igreja e liguei o som ao fato de ter visto o homem entrando. Desci as escadas, atravessei a rua e adentrei a igreja quando ele já havia quebrado vários bancos, enquanto gritava palavras de ordem contra a adoração de imagens e vários impropérios. Gritei com ele, disse que chamaria a polícia, mas ele agiu como se eu lá não estivesse.

Coitado do Cristo

Não me lembro em que aquele moço subiu, mas ele conseguiu acessar o enorme crucifixo da parede atrás do altar, retirando o madeiro com o corpo do crucificado e lançando-o com toda força em direção ao corredor central. Jesus e sua cruz voaram rasante por sobre o altar, pousando em pedaços como que já descrevi.

Corre que ele te pega

Em seguida ao atentado, o rapaz pulou no chão, ameaçando vir em minha direção. Foi quando ouvi de algum lugar uma voz gritando: corre que ele te pega! Não sei de onde retirei forças, mas num instante eu estava na rádio pedindo para a recepcionista que, pelo amor de Deus, ligasse para a polícia.

Caso encerrado

Em instantes policias vieram e flagraram o maluco promovendo quebradeira. Me lembro da cena onde ele foi enfiado no camburão, já algemado. Não tenho a mínima ideia do que se deu com ele, mas tenho certeza de que não foi simples coincidência eu estar na janela naquela hora. O crucifixo foi restaurado e voltou ao seu lugar. Também não me lembro em que ano se deu isso, só sei que foi no século passado.

Lição aprendida

Espero que o rapaz também tenha conseguido uma restauração. Assim como o crucifixo pôde ser restaurado, também as pessoas mais quebradas precisam de cuidado e redenção, não apenas de julgamento. Aquele dia me ensinou que nem todo ataque é contra a fé, mas muitas vezes um grito desesperado de quem já está em ruínas. Entendi ali que a verdadeira restauração que importa não é a da imagem no altar, mas a do ser humano em sofrimento. O Cristo voltou ao seu lugar; restou-me torcer para que o homem, perdido em seus próprios cacos, também tenha encontrado um caminho de volta. Não foi um milagre nem um filme de terror, mas um retrato cru da fragilidade humana e da necessidade de restauração.

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