sexta-feira, 6 março, 2026
- Anúncio -spot_img

Acordo UE–Mercosul entra na reta final e líderes europeus alertam para risco de isolamento do bloco

O debate sobre o Acordo de Livre Comércio entre a União Europeia e o Mercosul voltou ao centro da agenda internacional após o presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmar que o bloco corre o risco de ficar “sozinho no mundo” caso não avance com a assinatura do tratado. A declaração, feita em 8 de dezembro durante o Congresso Anual do Instituto Jacques Delors, em Paris, reacendeu discussões sobre os desafios e oportunidades do pacto birregional.

Costa destacou que a União Europeia só conseguirá manter relevância global se continuar atuando como potência comercial. “A UE não existirá no mundo se não for capaz de firmar acordos”, afirmou, ressaltando que o momento exige posicionamento firme diante da intensificação da disputa entre China e Estados Unidos pela liderança das redes globais de comércio.

Negociações na fase decisiva

Após mais de duas décadas de negociações, o acordo entrou em sua fase final. Com o Brasil na presidência pro tempore do Mercosul, há expectativa de um desfecho ainda em dezembro. Especialistas avaliam que o tratado pode abrir às empresas europeias um mercado de cerca de 300 milhões de consumidores, ampliando exportações, estimulando inovação e fortalecendo cooperação tecnológica e ambiental.

Para a advogada internacional e ex-parlamentar italiana Renata Bueno, que atua há anos na promoção de iniciativas entre Brasil, Itália e Europa, a conclusão do acordo é vista como “um passo geoestratégico decisivo, capaz de reposicionar a UE em um cenário global altamente competitivo”.

Segundo ela, “a Europa não pode se dar ao luxo de perder relevância em regiões com as quais mantém vínculos históricos, culturais e humanos profundos. O Mercosul não é apenas um mercado; é uma oportunidade de reconstruir pontes que fortalecem tanto a economia quanto a diplomacia”.

Renata também destaca impactos diretos para a economia italiana. “Setores tradicionais como o agroalimentar, o automotivo e o de tecnologia têm muito a ganhar. Há complementaridade natural entre as indústrias dos dois lados do Atlântico, e o acordo pode ampliar oportunidades de investimentos e inovação conjunta.”

Resistências internas e salvaguardas

A principal oposição ao tratado vem da França, que manifesta preocupação com possíveis impactos sobre seu setor agropecuário. Agricultores franceses temem perda de competitividade frente aos produtos sul-americanos.

Renata Bueno avalia que essas preocupações são legítimas, mas já foram devidamente consideradas. “As salvaguardas propostas por Bruxelas respondem aos receios franceses e de outros países. Há mecanismos sólidos de proteção aos produtores europeus, além de cláusulas ambientais mais rígidas do que muitos acordos internacionais vigentes”, afirma.

Segundo ela, o debate não pode ignorar o contexto geopolítico. “Enquanto a UE hesita, outros atores — especialmente China e Estados Unidos — avançam rapidamente na América do Sul. Se a Europa recuar, não será apenas um erro comercial, mas um erro estratégico com consequências de longo prazo.”

Experiência europeia e impacto global

O Parlamento Europeu já enfrentou debates complexos durante a ratificação de acordos como o CETA, com o Canadá, e o pacto comercial com o Japão. Apesar das resistências iniciais, esses tratados foram fundamentais para ampliar a competitividade europeia em mercados-chave.

Para Renata, o acordo com o Mercosul segue a mesma lógica. “A UE precisa agir como bloco coeso e assertivo. A multiplicidade de interesses internos não pode paralisar a política comercial. A hesitação nos enfraquece enquanto ator global.”

Ela alerta ainda para o impacto sobre pequenas e médias empresas. “As PMEs europeias são as que mais sofrem com barreiras tarifárias e burocráticas. O acordo seria uma porta de entrada para novas oportunidades de negócios e internacionalização.”

Brasil como parceiro estratégico

O Brasil tem papel central na negociação. Com economia robusta e compromisso renovado com políticas ambientais, o país é visto como aliado estratégico pela UE.

“Não se trata apenas de comércio, mas de cooperação em sustentabilidade, inovação e desenvolvimento regional”, avalia Renata Bueno. “O Brasil tem buscado protagonismo na transição verde, e a Europa tem muito a ganhar com essa parceria.”

Perspectivas

Com o acordo na reta final, cresce a pressão para que os líderes europeus avancem com a assinatura. Analistas consideram que o tratado pode inaugurar uma nova fase de cooperação transatlântica, com benefícios econômicos, ambientais e diplomáticos para ambas as regiões.

Renata Bueno resume o momento como decisivo:

“Ou a UE assina este acordo e reafirma seu papel no mundo, ou corre o risco de ficar irrelevante. As próximas semanas dirão se escolhemos avançar ou recuar diante da história.”

A expectativa é de que os desdobramentos de dezembro definam o futuro de um dos acordos comerciais mais longos e complexos já negociados pela União Europeia.

Últimas notícias

- Anúncio -spot_img

Assis Chateaubriand