sexta-feira, 6 março, 2026
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Por Clovis de Almeida

Aulinha de Comunicação

Expliquei a meu neto Otávio na semana passada o que era mídia. A palavra para muitos é estranha e, sem mais delongas, é a pronúncia de “media”, um vocábulo latino que em português significa simplesmente “meios”, de comunicação. O assunto me levou a lembrar um artigo que escrevi há vários anos, sobre os tempos do “êpa”, quando Assis Chateaubriand contava com quase 140 mil habitantes e se orgulhava de ter uma emissora de rádio que “pegava” até em Londrina.

Nos tempo do êpa

Era uma emissora clandestina de ondas curtas que montou seu primeiro estúdio no centro da cidade. Um camarada conhecido por “Panamá” era a atração da maioria dos programas. Ao meio-dia, a rádio transmitia um programa falado quase que totalmente em japonês, para a colônia nipônica. Os apresentadores eram de origem japonesa. Lembro-me que não entendia nada do que diziam, mas gostava do programa e das músicas que rodavam nos velhos “long-plays”, que ainda nem eram de vinil. Iguais aos discos de propaganda, eram feitos de celuloide sobre chapa de alumínio.

Ainda guri

Tempos depois, essa mesma rádio mudou-se em frente à Praça das Artes. Tinha até auditório, onde havia programas de calouros e violeiros. Cheguei a cantar em um daqueles programas. Eu só tinha oito anos de idade e tentei cantar a música O Bom Rapaz, de Wanderley Cardoso, que dizia: “Parece que eu sabia…” e, esqueci a letra. A apresentadora disse: “Parece que não sabe mesmo!”.

As coisas iam bem, na época, e a emissora construiu sua sede própria, na Rua dos Pioneiros (hoje avenida). Uma casa de madeira, com uma torre imensa do lado.

Os artistas

Os locutores eram o Paulo de Paula profissionalmente, que ainda não cantava e atendia pelo nome de batismo, Agenor Barbosa e Dilton José de Almeida. Não me lembro de outros. Os conheci quando levava cartinhas pedindo música, com o pretexto de observar o quê e como faziam “mídia”, embora nem imaginava o que era isso e, acho que nem eles. Era aquilo que eu queria fazer, embora ainda não soubesse. Só anos depois, o cantor de “Quarto de Mansão”, Paulo de Paula, me abriu as portas dessa mídia falada, para minha primeira experiência no rádio, a Rádio Marumby, na Capital.

Fim da brincadeira

Um dia veio o DENTEL (antigo órgão fiscalizador do Ministério das Comunicações) e fechou a Rádio Porta Voz de Assis, lacrou os transmissores e acabou com a “rádia” da cidade. O dono da emissora fechada, que era de Paranavaí, com o que restou dos aparelhos e dos discos de músicas, inaugurou o serviço de alto-falante na cidade. Um estúdio no Edifício Garcia que emitia seu som para uns 20 alto-falantes espalhados nos altos dos postes de energia, que eram de madeira, ao longo da Avenida Tupãssi.

Rádio nos postes

A agência do Banco do Brasil foi inaugurada no dia 07 de julho de 1977. O serviço de alto-falante transmitiu ao vivo a solenidade, através de um rádiotransmissor, direto para os alto-falantes. Os repórteres eram Roberto Silva e Antônio Peres.

A voz da avenida

Retornando de Curitiba, fiz parte dos últimos momentos dessa “mídia” em Assis. Era final dos anos 70 e todas as manhãs lá estava eu tocando os sucessos que eram “hits” na Capital. “Love Hurts” e “Mississipi”, eu trouxe numa fita cassete, por acaso, de Curitiba e que já rodava nos falantes da avenida, quando as emissoras de rádio ainda não tinham descoberto esses dois sucessos internacionais.

Nasce o locutor

As pessoas se aglomeravam debaixo dos postes para ouvir novidades. Principalmente quando tocava a “Ave-Maria”. Era com certeza uma nota de falecimento, se não fosse seis horas da tarde.

Um dia de junho de 1978, no “estúdio” dos falantes recebi a visita de um tal José Lima Neto que se apresentou como “gerente” da nova rádio em Assis. Eu nem sabia que ia ter rádio. Era a Rádio Jornal que se preparava para ser montada. Aquele homem calvo, de cara amarrada parecia ser da “mídia”. Em poucas palavras disse que havia gostado do meu “programa” nos alto-falantes e me convidou para fazer a mesma coisa na emissora que deveria entrar no ar em setembro. E lá fui eu aceitar o convite.

Os postes ficam mudos

Em janeiro de 1979 o Serviço de Alto-falantes fechou suas portas e ficou mudo para sempre. Junto com ele, calaram-se também a maioria das vozes clandestinas que durante muitos anos alegraram e informaram os nossos pioneiros, dando lugar a novos comunicadores que iniciaram a história oficial da “mídia” chatobriense, da qual tenho orgulho de fazer parte e ter feito tantos discípulos que continuam a ecoar meus programas, muito do jeito que os criei.

Desafinando pelo mundo

A minha apresentação como cantor no festival de 77 foi a maior decepção que já tive segurando um microfone, pois me meti a cantar, quando desafinava até batendo palmas. O apresentador era o Zé Dilton, que, após minha apresentação me mandou sair cantando pelo mundo, de mãos dadas com uma mocinha que cantou tão ruim quanto eu. Mas, teve o troco e isso eu conto outro dia.

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