sexta-feira, 6 março, 2026
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Te benzo, te curo

Quem cuida das dores de barriga, febres e outros males das crianças é o pediatra. Todo mundo sabe. Isso, quando não é o farmacêutico ou atendente de farmácia que prescreve um remedinho. Mas, nos anos 60, os médicos mais comuns das crianças eram os benzedores, homens e mulheres já na terceira idade, que, com ramos de arruda, um copo d’água, pedaços de carvão e uma oração dita em resmungo que a gente não entendia, buscavam espantar os males que afligiam os pequenos.

Era lombriga

Era só acordar ou entardecer com febre que lá ia minha mãe na casa de seo Afonsinho ou na de dona Quintina e seo João, pedir que me benzessem. Depois de saberem os meus sintomas, lá vinha o jargão: “se não for susto é lombriga”, diagnosticavam os rezadores. Como eu quase nunca levava susto, só podia ser mesmo lombriga, e das grandes…

Claro que era lombriga!

O problema é que eu vivia com amígdalas inflamadas e, como os benzedores não tinham a menor ideia de que fosse isso, tascavam rezas e mais rezas, regadas com chuviscos molhados de um galho de arruda encharcado num copo d’água.

Para ter certeza que era lombriga, os benzedores tinham um teste ‘infalível’: Colocavam um pedaço de carvão num copo d´água, se afundasse, era lombriga, uma bicha na certa.

Claro que funcionava!

Antes de me atenderem, cansei de ver dona Quintina e seo João Batista benzerem muita gente de espinhela caída. O paciente colocava as duas mãos no solar da porta de entrada da casa, enquanto os benzedores iam cruzando suas costas com passadas de arruda em água, dizendo as orações balbuciadas.

O tal de ventre virado e quebranto, que não se falam mais, eram as maiores doenças dos bebês. Só se curavam com benzimentos, diziam. As mães faziam filas com seus bebês no colo. O mais incrível é que as crianças chegavam chorando e saiam dormindo como anjos.

Santo de casa não presta

Ainda criança, aprendi que benzimento não funciona com parentes para alguns males, porque minha mãe também benzia as pessoas, mas em casa não curava a gente de tudo, nem mesmo a ela. Certa vez uma curandeira de uma cidade vizinha lhe receitou lavar as canelas das pernas com unguento de um mato chamado guanxuma, para curar uma erisipela. Coitada, piorou tanto que as feridas ficaram em carne viva. Não fosse o doutor Adelmo do São Bento teria perdido uma das pernas.

O santo remédio

Dona Olívia tinha boa mão quando se tratava de bronquite e ínguas, diziam seus benzidos, que não eram poucos. Alguns ainda estão por aí, para não me deixarem mentir sozinho. Ela era muito procurada por fazer um “santo remédio” para curar bronquite, como diziam seus “pacientes”. Era um xarope à base de umbigo de banana e mel. Vinha gente de longe em busca da garrafada, mas se esqueciam de trazer o tal umbigo, e muito menos o mel. E lá ia eu procurar bananeiras nas vizinhanças. O bom era que quase todo mundo tinha um bananal.

Ela não cobrava pelo remédio, o que me deixava emputecido, porque tomava tempo, lenha, mel e muito açúcar. Nunca precisei tomar, mas quem tomou disse que sarou pra sempre. Uma vez experimentei. Tinha gosto de nada com coisa nenhuma, meio parecido com doce de chuchu, mas era um santo remédio.

O quê eu benzo?

Com um machado nas mãos, dona Olívia pedia que a gente andasse numa linha reta, olhando pra frente, enquanto perguntava: “O que eu benzo?”, ao que respondíamos: “íngua”, para ela fazer uma cruz no chão com o machado, dizendo “íngua nenhuma”. Acho que era mais ou menos assim. E sarava.

Eu tinha muito medo de furar o pé em pregos, não por causa da furada, mas do efeito colateral na virilha, a íngua, uma pelota que brotava por causa da inflamação no ferimento. Não suportava imaginar minha mãe riscando um machado nos meus calcanhares. Era só o que faltava uma machadada no pé.

Mijo era remédio

A lembrança das furadas de pregos nos pés me levam a rememorar o jeito caseiro das mães como enfermeiras e médicas de última hora. Para não dar tétano e sarar logo, o remédio era um composto de fumo e urina. A mistura fervida por alguns minutos era usada para escaldar o ferimento. Já adulto, li em algum lugar que essa prática é mais perigosa do que eficaz. Perdi a conta de quantas vezes minha mãe “cozinhou” meus pés com mijo fervendo. Nunca tive infecções por furadas de prego ou cortes de caco de vidro e lata velha. O mais chato era mijar na latinha, pois a urina que tinha no estoque havia saído toda nas calças na hora da furada, que doía pra cacete.

O mundo não mudou muito

Se naquela época a gente acreditava em benzimento, hoje a maioria acredita no colega, no vizinho ou no balconista da farmácia: “Leva esse remédio aqui que é muito bom. O primo da tia da minha vizinha tomou, sarou e tá que é só um côco”. Mas, pior que isso são os remedinhos, jeitinhos e armadas que se pode aprender nos Facebooks, Tik Toks e Instagrans da vida. E tem gente que acredita. Prefiro os benzimentos.

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