comemorar ou refletir
sobre os desafios da educação?
No dia 15 de outubro de 1827, Pedro I, Imperador do Brasil baixou um decreto imperial que criou o ensino elementar no Brasil, mas foi somente em 1947, 120 anos após o referido decreto, que ocorreu a primeira homenagem e comemoração de um dia efetivamente dedicado ao professor. O Dia do Professor é, sem dúvida, uma data significativa que nos lembra da importância dos educadores na formação de uma sociedade mais justa, crítica e consciente. Em um país como o Brasil, onde a educação é um dos pilares para a construção de um futuro mais igualitário, esse dia deveria ser de celebração e reconhecimento. No entanto, mais do que uma comemoração, talvez seja o momento de refletirmos sobre os desafios diários que os professores enfrentam, principalmente no que se refere à indisciplina nas salas de aula, que tem se mostrado um dos maiores obstáculos à qualidade da educação.
Segundo o Professor Lucelmo Lacerda que é doutor em educação, pesquisador na Universidade da Carolina do Norte (EUA): “A educação brasileira vive inúmeros problemas, não gratuitamente. Aparece nos últimos lugares em todos os rankings internacionais, mas esses dados estão ainda mais aquém do que a realidade das salas de aula”.
Nos últimos anos, os professores têm enfrentados desafios enormes. Segundo as pesquisas mais robustas sobre a visão dos professores sobre a educação atual, a indisciplina é o maior problema enfrentado pelos professores na atualidade. Uma pesquisa recente da OCDE, que mensurou as relações de sala de aula, verificou que o Brasil é o país em que há menos aula, entre os 73 países avaliados.
Segundo o levantamento, os professores gastam cada vez mais tempo administrando problemas de comportamento em sala de aula. “A percepção de que a indisciplina é o maior desafio coincide com estudos internacionais, como os da OCDE”, conclui o professor Lucelmo.
A indisciplina não é um problema novo, mas tem se intensificado com o tempo. Em muitos casos, o ambiente escolar tem se tornado um espaço de constantes conflitos, desrespeito e violência. Para o professor, lidar com esse cenário torna-se não só um desafio pedagógico, mas também uma questão de saúde mental. O estresse, a frustração e a sensação de impotência frente a um comportamento inadequado e, muitas vezes, agressivo de alunos, afetam diretamente a capacidade do docente de ensinar e de manter um ambiente propício à aprendizagem.
Ao longo dos anos, diversas discussões sobre a causa da indisciplina nas escolas têm surgido. Muitos apontam a falta de uma estrutura adequada nas escolas, com condições físicas precárias e materiais didáticos insuficientes. Outros indicam a sobrecarga de trabalho dos professores, que, além de lecionar, precisam exercer múltiplas funções: psicólogos, mediadores, orientadores, entre outras. Esses fatores contribuem para o desgaste emocional e físico dos profissionais da educação, que muitas vezes não têm o suporte necessário para enfrentar os desafios do dia a dia.
Contudo, é importante destacar que a indisciplina também está relacionada a uma mudança mais ampla no comportamento social. Vivemos em um contexto no qual o respeito à autoridade e à hierarquia tem sido cada vez mais questionado, inclusive dentro das instituições de ensino. As crianças e adolescentes, muitas vezes, reproduzem comportamentos de desrespeito que veem em outros espaços da sociedade, como em suas próprias casas, na mídia e até nas redes sociais.
Portanto, o Dia do Professor deveria ser uma data para refletirmos não apenas sobre o reconhecimento do trabalho dos educadores, mas também sobre o que a sociedade tem feito para apoiar esses profissionais diante dos desafios que enfrentam. Comemorar a data é importante, claro, mas mais importante ainda é pensar em soluções para melhorar as condições de trabalho dos professores e garantir um ambiente de aprendizado mais saudável e respeitoso para todos.
Amigo (a) leitor (a), a sociedade precisa entender que, para que a educação de qualidade seja uma realidade, é fundamental apoiar os professores. Isso inclui desde a valorização salarial até o fortalecimento da infraestrutura das escolas, passando pela promoção de políticas públicas que assegurem a formação contínua dos docentes e a criação de um ambiente de respeito e colaboração.
A indisciplina não pode ser vista como um problema isolado. Ela é um reflexo de questões sociais mais amplas que envolvem a família, a mídia, a política educacional e até a cultura organizacional das escolas. Portanto, no Dia do Professor, é hora de celebrar sim, mas também de cobrar e refletir sobre a construção de um futuro educacional mais justo, onde a educação não seja uma guerra diária contra a indisciplina, mas um processo de construção coletiva e respeitosa de conhecimento.
Que o Dia do Professor seja, então, mais do que uma simples comemoração. Que seja um momento de reflexão profunda sobre os desafios da educação, da valorização dos docentes e do papel fundamental que a sociedade tem na construção de um ambiente escolar mais harmônico e produtivo.
* Filósofo e teólogo – professor de filosofia, antropologia e história.
Professor da Rede Estadual de Educação
pardinhorama@gmail.com



