
Recebi um texto muito bacana do amigo Cláudio Laghi que faz a gente viajar no tempo relembrando de coisas que vimos, usamos ou fizemos há 50 anos atrás. Se você já foi um “pão” e conheceu um “broto”, teve um anel “brucutu”, foi a um baile de garagem com luz negra ou usou um Vulcabrás ou Passo Doble. Será que você teve uma Sharp, Telefunken, Colorado RQ, ou uma Philips de tubo? Conheceu o toca-fitas Roadstar ou TKR cara preta? Sabe quem foi Teixeirinha e Valdick Soriano? Cantava Only Youuuu, Curtia National Kid e Ultraman? Assistiu aos Reis do IÉ, IÉ, IÉ?
Se você respondeu a pelo menos uma das perguntas é porque viveu no dos anos 60, 70 ou 80.
Fiquei pensando em como os adolescentes e jovens de hoje irão escrever memórias do cotidiano atual, daqui a 40 anos. Pela força do hábito da profissão, atravessei a vida até aqui observando comportamentos. Tendo isso por base, imaginei um texto, juntando um pouco desse mundo que também será só lembranças num futuro não muito distante:
Se você já foi chamado de cringe por tomar café da manhã com pão e manteiga em vez de um bowl de açaí com granol instagramável. Achou que ia ficar famoso por causa de uma trend no TikTok e só ganhou vergonha alheia eterna. Já tentou fazer challenge de dança na frente do espelho e quase deslocou o quadril.
Chamou o cachorro de pet influencer e criou perfil no Insta com mais seguidores que você. Fez 32 takes de um vídeo de 15 segundos — e postou só pra apagar 10 minutos depois. Usou gírias como flopar, paz e pano ou nunca fui triste e depois fingiu que nunca falou isso. Colocou bio no Instagram tipo seja luz ✨ e surtou por causa de uma visualização no status. Postou indireta no Stories e ficou olhando quem viu, como se alguém fosse ligar.
Se você fez a famosa cara de mal na selfie e parecia só com refluxo mesmo. Gastou R$ 80 numa calça rasgada — que a sua avó jurava ter jogado fora em 2005. Achou que sabia muito de política porque viu dois vídeos no TikTok e um corte de podcast. Falou que ia se desconectar do mundo e ficou 7 minutos offline (porque o Wi-Fi caiu). Fez reunião de grupo no Meet e ninguém apareceu — nem você. Passou mais tempo escolhendo o filtro do que tirando a foto.
Chamou pizza de confort food, miojo de lamen e Guaraná de bebida artesanal brasileira. Usou Crocs com meia colorida e jurou que era fashion. Diz que odeia rede social, mas entra no Instagram com o dedo automático. Fez amizade em grupo de fãs, brigou por ship errado e saiu bloqueado de cinco perfis. Aprendeu a fazer café com leite de aveia e postou “bom dia, gratidão” mesmo com sono de 3 dias acumulado. Já postou frase tipo “não sou obrigado a nada” e ficou esperando curtidas como se fossem validação espiritual. Achou que ia mudar o mundo com uma thread no Twitter, um TikTok com música triste e um Reels em câmera lenta. Fez playlist chamada “só as boas”, gastou metade do tempo no rolê tentando conectar o Bluetooth da JBL. Prometeu que não ia mais comprar na Shopee e acordou com cinco pacotes novos na portaria.
Então, meu amigo, minha amiga, parabéns! Você sobreviveu à adolescência do Wi-Fi instável, da vida em 1.5x e das notificações fantasmas — e um dia ainda vai contar tudo isso pros seus netos, com filtro retrô, claro.



