A preocupação se parece muito com os cupins. Ela nos destrói pouco a pouco com ressentimentos, pensamentos e atitudes negativas, até que nos sintamos tão indefesos que, por qualquer coisa, nos vemos à beira de um colapso. Como enfrentar esta realidade moderna?
Isto mostra que é um tremendo erro a desenfreada preocupação pelo bem-estar material, pelo ter sempre mais, pois o vazio que tantas e tantas pessoas sentem, a infelicidade e angústia de ricos e pobres, não podem ser resolvidos com bens materiais. Os bens, em si, não são um mal. O problema é que quanto mais nos apegamos a eles, tanto mais eles nos seduzem, envolvem, escravizam, tirando-nos a liberdade de vivermos felizes. Eles até podem nos dar prazer momentâneo, mas nunca a felicidade.
Apesar de se deparar com dificuldades infindas, aos poucos, uma substancial parcela de cidadãos passou a meditar sobre as disparatadas maneiras como os homens se conduzem na Terra.
A preocupação nos debilita tanto, que às vezes agimos como se Deus nos tivesse abandonado. A preocupação é tão destrutiva quanto os “cupins”. As atitudes doentias e os temores confusos nos corroem tanto, a ponto de o nosso corpo reagir à turbulência de nossa mente e nos tornamos nervosos, tensos e irritáveis. Qual é o segredo para superarmos a preocupação?
Há quem tente eliminar as suas inquietações adquirindo bens que, conforme creem, lhes darão segurança. Bens materiais, como urna casa e riquezas, no entanto, não eliminam a inquietação. Pelo contrário, eles produzem mais preocupações, tais como as que se expressam geralmente nas seguintes exclamações: “Como vou manter o meu lar?” “Como poderei proteger melhor os meus bens contra os ladrões?”
As pessoas aperfeiçoaram muitas formas de fugir à realidade. Por exemplo, muitos esperam livrar-se de suas dificuldades econômicas investindo em jogos de azar. Essas pessoas são arrastadas para longe da realidade, para um mundo em que pensam poder melhorar, de um só golpe, a sorte de suas vidas.
Existem ainda indivíduos que tentam fugir das dificuldades da vida, adormecendo as suas consciências com o álcool. Eles passam o fim de semana sob os efeitos da bebida alcoólica. Parece que são incapazes de desfrutar do seu tempo livre com uma mente clara e sóbria. E muitos fazem o mesmo com calmantes ou estimulantes, confiando que estes lhes deem um otimismo artificial para fazer frente à realidade.
Nem todos, porém, se valem do jogo, da bebida ou das drogas para fugirem da triste realidade da vida. Muitos têm métodos sutis. O estudante universitário, que fica dormindo ao invés de assistir as aulas e a pessoa que prorroga continuamente a solução de seus problemas para o dia seguinte, estão sempre retardando o seu próprio progresso em mais um dia. Outro exemplo é o da pessoa que, quando é contrariada por outra, se fecha em si mesma e evita a comunicação. Uma pessoa assim será incapaz de lutar com os seus próprios problemas de forma construtiva.
O triste resultado de todo este constante fugir da realidade é que os nossos problemas não desaparecem, nem mesmo melhoram pelo fato de os ignorarmos. Na verdade, eles geralmente pioram. Não faltam os que acreditam que a solução para a preocupação é entregar-se aos desígnios do destino: “Não podemos mudar o amanhã”, dizem eles. “Simplesmente temos que aceitar as coisas como elas são”. Em um primeiro momento, esta atitude fatalista soa razoavelmente bem, mas, quando a pessoa passa por adversidades e por perigos, ela se dá conta de que viver de acordo com o destino não acalma a ansiedade do coração. Entregar-nos resignadamente ao destino é como empreendermos uma viagem a uma terra estranha, sem contar com um mapa ou uma pessoa que nos guie.
* Filósofo e teólogo – professor de filosofia, antropologia e história. Professor da Rede Estadual de Educação pardinhorama@gmail.com |