Antes que alguém pense que o adjetivo do título seja um palavrão, adianto: hebdomadário é apenas um termo rebuscado para designar algo semanal, que acontece ou surge a cada sete dias. Em outras palavras, um semanário. Mas, afinal, o que há de novo nisso?
Respondo logo: o linguajar que usávamos na imprensa escrita há 50 anos. Era assim que os jornais semanais se referiam a si próprios. Não era raro encontrar em matérias, crônicas e artigos frases como: “Saiba o que se aventa na sua cidade, leia e assine este hebdomadário.”
Aventa vem do verbo aventar, que significa expor, proferir, dizer, ventilar, sugerir. Palavras como essa foram sendo relegadas às gavetas dos dicionários, esquecidas à medida que novas gerações deixavam de usá-las, substituindo-as por termos mais cotidianos ou gírias passageiras.
Hoje, as mensagens são diretas. Dizem tudo em poucas palavras. Se, por um lado, isso torna a comunicação objetiva e atende a um público sempre apressado, por outro, perde-se a sensibilidade do jogo de palavras, que muitas vezes fazia poesia no passado.
Um bom exemplo desse lirismo está em um texto do então prefeito e vice-prefeito de Assis Chateaubriand, Rudy Alvarez e Duarte Celestino de Oliveira, publicado no jornal A Voz do Oeste de Toledo, na edição de agosto de 1971, por ocasião do quinto aniversário da cidade:
“Pegou um Ita no Norte, disse adeus ao Sul, deixou o Leste ou veio do Oeste. Trouxe no coração a imorredoira saudade da caatinga, do pago, da praia ou dos campos gerais, de onde veio – daqui, dali, dacolá. Trouxe consigo um peito vibrante de coragem e disposição para o trabalho e, ao som do xaxado, da rancheira, do samba, da melodia nacional ou estrangeira, movimentaram incessantemente os braços no cultivo de uma terra que, cedo, se transformaria no mais próspero entre os jovens municípios paranaenses.”
Era assim que se homenageavam os pioneiros que desbravavam novas terras. As mensagens tinham um lado poético, uma cadência que encantava. Ainda há quem escreva desse jeito, mas são poucos, remanescentes de uma época em que as palavras tinham mais força do que qualquer imagem – por mais que um velho ditado afirme o contrário.
A comunicação de hoje é ótima – ou, como dizem os jovens, é da hora. Clara, objetiva, sem rodeios. Como tomar uma latinha de cerveja num gole só. Mas eu sou do tempo em que se demorava meia hora para beber uma dose de cachaça. Cada gole era um espaço entre uma história e outra, como os comerciais que separam as partes de um filme na TV.
Confesso que achei que odiaria a tal inteligência artificial. Apostava que ela não tinha alma, que não poderia ser poética. Mas descobri que, quando bem treinada, a IA pode ser mais humana e cheia de sentimentos do que muita gente que se acha o bicho da goiaba.
Embora seja uma máquina, se bem instruída, a IA consegue produzir poesia, criar textos que emocionam até corações de pedra. Pode até ser falso, mas parece que tem alma. E o melhor: ela consegue unir um hebdomadário com um “zap”, misturar o rebuscado com o popular e o clássico com o contemporâneo, para dizer, sem rodeios, que hoje estou “um nojo”.
Por Clóvis de Almeida